Mostrando postagens com marcador Armas e Letras do Parana. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Armas e Letras do Parana. Mostrar todas as postagens

Ruy Barbosa

De mais vivo esplendor que o diadema
Dos opulentos cezares de antanho
Vê-se-lhe á fronte augusta o fulvo estemma
Do genio, como sol de lume estranho.

Vultuoso ser que, ultrapassando a extrema
Deste amado Brasil, rico e tamanho,
Lá fóra fulgurou — preciosa gemma —
Como aurea joia que deixasse o banho...

Qual o condor remonta-se ao Hymalaia,
Alcandorou-se na aza do Talento,
Nessa tertulia do saber, em Haya.

E do alto, então, num gesto sobranceiro,
Mostrou a Patria, como um monumento,
Aos olhos pasmos do Universo inteiro.

Arco iris (1923); As Armas e as Letras do Paraná; Diario da Tarde (28/02/1910); Album do Paraná nº 10-11 (1920); Itiberê nº 47 (MAR/1923)

Mendiga

Ao Dr. Claudino dos Santos

Velha, muito velhinha mesmo, a coitadinha
Vergada, como um C, ou como um arco torta,
A’ caridade extende a mão, pobre velhinha
Um obulo pedindo, anda de porta em porta.

— “Por amor de Jesus á velha uma esmolinha...”
Já lhe custa falar... Pobre! Não n’a conforta
Um carinho siquer... Vive triste e sosinha
E a Dor, como um punhal, o coração lhe corta.

O lar, tinha-o feliz, mas um dia a Desgraça
Entrou-lhe porta a dentro, assim como uma traça
E tudo destroçou, deixando-a sem vintem.

Hoje, ao peso da Dor e dos annos, vergada,
A’ Caridade extende a mão escaveirada
Qual se fôra a mulher do infeliz Pedro Cem.

Bizarrias (1908); As Armas e as Letras do Paraná

De volta

Retornaste afinal, depois de prolongada
Ausencia, que me encheu o coração de assombros
E me fez da existencia uma cruz tão pesada
Que eu não sei como pude aguental-a nos hombros.

Mas, porque se fallar na tortura passada
Relembrando-a se jaz sob negros escombros?
A tristeza passou e, á alegria embalada,
A alma tenho a florir como lizes nos combros.

Recordemos somente os dias luminosos...
A dor que nos feriu, esqueçamol-a agora
Que a ventura nos chama ao palacio dos gozos.

Fiquem no olvido, pois, os desares do Fado,
Que para relembrar o mal que foi embora
Ninguem deve folhear o livro do passado.

Arco iris (1923); Folha Rosea (15/08/1911), com a nota “Coritiba, Julho de 1911”; As Armas e as Letras do Paraná, com a mesma nota