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Saudade

Aqui, na minha solidão de monje,
chega-me ao ouvido,
muito vago, de longe,
o sonido
de um sino, que talvez
chore alguem, cujos olhos
cerraram-se de vez...

Como é triste pisar-se um caminho de abrolhos!

De alma a chorar e coração enfermo,
escuto
dentro do meu ermo
e dentro do meu luto
a voz do sino, quasi
imperceptível como
uma phrase
que, no final assomo,
o moribundo diz...

Deshoras... Vélo... Evoco o meu passado

Como sou desgraçado

e como fui feliz!

Avoluma-se agora a voz do sino... Sonho?!

E bronze vibra dentro em mim!
E’ o coração, supponho,
E nunca vi meu coração assim!
Eu tenho os olhos rasos de agoa
e tenho em pranto o coração...

Como dóe esta magoa
da minha solidão!

A alma toda me invade
a tristeza dos naufragos, no mar...

Adormeço nos braços da saudade,
Como um salgueiro a soluçar...

10—6—1923
Itiberê nº 50 (JUN/1923)

Pássaro Rubro

I
Toda manhã, apenas era nado
O sol, um rubro passaro pequeno,
De minha casa á beira do telhado,
Vinha entoar um dulçuroso threno.

E eu minutos felizes embalado
Por esse canto de harmonia pleno
Ficava, como ser afortunado
Que logra se afastar do humano ceno.

Um dia, emtanto, concebi o plano
De armar um laço ao pobre passarinho
Que se deixou incauto apresionar.

Tornei-me então o seu maior tyranno,
Arrancando-o á caricia do seu ninho,
Tirei-lhe a liberdade de voar.

II
Num carcere de arame colloquei-o,
E elle, a principio, por se ver liberto,
Se debateu no torturante anceio
De quem se encontra num momento incerto.

Alfim com a pena a conformar-se veio.
Uma manhã de sol quase encoberto,
Ao despertar senti o teu gorgeio
De goso encher-me o coração deserto.
D’ahi por diante, dia sobre dia,
Ouvi-lhe o canto; subito, porem,
Atacou-lhe da matta a nostalgia.

Entristeceu, soltei-o e nunca mais
Tornou aqui o passarinho... quem
Volta, se escapa, ao meio dos chacaes?

Itiberê nº 37 (MAI/1922); O Olho da Rua (08/07/1911)

Passaro Azul

Era um passaro azul cujo gorgeio
        penetrava-me o seio,
        fazendo-me sonhar...

Pela manhã, apenas era nado
        o sol, vinha acordar-me o seu trinado,
        vinha esperar-me o seu doce cantar.

Então eu, do meu leito, pressurosa,
        á voz melodiosa
        desse alado cantor,
        sabia e, descerrando, incontinente,
        a janella do quarto, a alma dolente,
        sentia desbrochar como uma flôr...

Horas a fio, ouvindo-o eu me embebia
        de uma estranha alegria
        de um immenso prazer,
        porque esse trilo, como um beijo suave,
        fazia-me da vida um chilro de ave
        e me augmentava o anceio de viver.

Certo dia, porem, o passarinho
        cujo canto era um vinho,
        para mim, cordial,
        não me veio acordar com seu gorgeio
        e esse silencio penetrou-me o seio
        como acerada ponta de punhal.

Presa de idéas más, abro a janella
        e olho o jardim... Que bella
        floração! Os rosaes
        esplendem! Multicores borboletas
        voam das rosas para as violetas numa
        ansia de quem quer sugar de mais...

E o passaro meu Deus?! Nisto um pipilo
        escuto e, por ouvil-o,
        o meu olhar percorre
        todo o jardim, onde, afinal, diviso,
        numa áléa, sobre o calix de um narciso,
        o passarinho azul, na hora em que morre.

Quem o matou?! Não sei. Desde esse dia,
        Nunca mais á alegria
        pulsou-me o coração.
        A morte desse trovador alado,
        cujo canto era balsamo sagrado,
        morreu-me d’alma a ultima illusão.

Nunca mais, nunca mais esse gorgeio
        ha de invadir-me o seio,
        enchendo-o de prazer...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Esse passaro azul era a esperança,
        era um sonho d’amor que não se alcança,
        mas justifica esta ansia de viver.

Curityba.
Itiberê nº 30/32 (DEZ/1921)

O coração

Finge-te alegre coração... encobre
A funda magoa de que estas repleto...
Olha: o teu choro me recorda um dobre
N’uma ermidinha de formoso aspecto.

O orgulho, crê, é um sentimento nobre...
Quero-te, pois, meu coração quieto.
Deixa que um outro teu irmão mais pobre
Ande de amor a mendigar affecto.

Deves altivo te mostrar embora,
Augmente dia a dia ou de hora em hora
Essa paixão de que vives repleto...

Sim, que o orgulho é um sentimento nobre...
Deixa que um outro teu irmão mais pobre
Ande de rastros, mendigando affecto.

Itiberê nº 35 (MAR/1922)

Noiva

Afinal encontrei a sonhada ventura!
Em ti se me resume a vida toda agora.
Teus olhos, como sóes, innundam-me da pura
Luz que o meu coração anima e revigora.

Embala-me a tua voz, — favo cuja doçura
Sorvo, como se fosse almo nectar que irrora
Do céo e na alma cae, e, ao cahir, transfigura
A alma, que a noite ensombra, em rosicler de aurora!

Noiva, beijo-te a mão fidalga que me afaga!
Tiraste-me do peito a dôr de quem vivia
De lagrimas num mar, rolando, vaga a vaga!

Noiva, alma de minh’alma, em tuas mãos deponho
Meu coração, a rir, nesta doida alegria
De te ver junto a mim como te via em sonho!

Itiberê nº 65 (SET/1924)

Inverno

Neva lá fóra. E’ intenso o frio! Eu tremo
Sob astrakans, tal como de terror
O condemnado, no momento extremo,
Tirita ao pé do seu executor.

Urso do Polo, eu contra ti blasphemo
Quando te sinto o rispido rigor;
Azorrague que corta a carne e eu temo
Como de Atropos teme-se o furor.

Frias as mãos, o corpo regelado,
Tremo, como um velhinho se extinguindo,
A’ semelhança de um brandão á morte...

A neve cae... O’ inverno despiedado
A’ terra dás, as arvores despindo,
Toda a desolação do Polo Norte!

Itiberê nº 60/61 (ABR-MAI/1924); O Olho da Rua (05/08/1911)

Filha morta

Olhos cerrados para sempre... Morta
Fitando-a agora neste esquife branco
Acerado punhal a alma me corta
E a torrente de choro eu não estanco.

Tamanha dor, que balsamo a conforta,
Se da magoa se pisa o atro barranco?
Que vale o céo? Que importa o céo? Que importa
Se minha dor, olhando-a, não espanco?

Não ha consolo para a desventura
Do pae que vê tombar na noite escura
Da morte um filho que adorou na vida.

Chagado o coração pela saudade
Eterno fica; nem o tempo ha de
Cicatrizar jamais essa ferida!

Coritiba, 14-12-1912
Itiberê nº 36 (ABR/1922)

Esposa

Companheira gentil, querida esposa quanta
alegria me dás! que goso experimento
por ter-te ao lado meu, formosa como santa
que deixasse por mim o azul do firmamento!

Por tua bocca de flôr aos meus ouvidos canta
o amor, todo carinho; e mais eu me acorrento
dia a dia a esse olhar cujo fulgor encanta
como estrella a brilhar de momento a momento!

No meu isolamento, este lar que habitamos
tinha a desolação da floresta sombria
sem um ninho siquer, sem passaros nos ramos!

A’ tua vinda, porém, um milagre se fez:
Pude sorver emfim, o vinho da alegria
e comtigo viver na doce embriaguez!

Itiberê nº 65 (SET/1924)

Encantada

Ha quanto tempo já que não me é dado
contemplar-te a bellesa peregrina,
ó morena gentil do meu cuidado
de olhos de estrella cuja luz fascina:

Por toda parte busco-te, o meu fado
cumprindo assim, por que não foge á sina
quem veio ao mundo, como eu vim, talhado
para soffrer de amor a dor mofina!

Onde te escondes tu, que não consigo
ver-te o perfil de cysne sobre a clara
agoa do lago a deslisar feliz?

Onde te escondes tu, que este castigo
cruel me dàs de te não ver a rara
formosura lendaria das huris?!

 Itiberê nº 53/54 (SET-OUT/1923)

Victorioso

Por essa dama de apagados olhos
Que me é agora indifferente, doudo
Do amor, pisando sobre chão de abrolhos,
Eu me bati com singular denodo.

Como guerreiro que não teme a morte,
Enfrentei, peito a peito, mil rivaes,
Vencendo-os todos com meu braço forte,
Pondo-os por terra para nunca mais...

Cada justa valeu-me uma victoria,
Cada prelio um triumpho me valeu!
Outro que tal fizesse de memoria
Não me occorre, o “record” bati-o eu!

Entretanto, esse amor que me era escudo
E parecia ser eterno, alfim
Rolou por terra, como rola tudo,
E nem saudades me deixou a mim!

Arco iris (1923); Itiberê nº 39/41 (SET/1922)

No ermo

Deixa-me aqui, na paz deste recanto obscuro,
Como triste ermitão que sonhou ser feliz
A’ luz de um grande amor, que se tornou perjuro
E do mal que lhe fez conserva a cicatriz.

Derrocada cruel!... Castellos de futuro,
Alegrias de sol, sonhos brancos de liz,
Tudo, tudo rolou, como no leito escuro
Desse estyge infernal róla o ser infeliz!

Quero viver agora alheiado ao ruido
Da cidade... Ermitão, a chorar sua desdita,
Sem que lhe ouça alguem o magoado gemido...

Em paz, deixa-me aqui... O isolamento é morte.
Isolar-se é morrer longe da humana grita,
Sereno como um Deus, nesse ultimo transporte!

Arco iris (1923); Itiberê nº 35 (MAR/1922)

Teu retrato

Esses teus olhos, flor, cujo negrume
Idéa dá do lucto de minh’alma,
Têm todo aquelle extraordinario lume
Das estrellas do Azul em noite calma.

Essa tua bocca rubida o perfume
Raro contêm de viridente palma;
A tua voz recorda a voz de um nume
Cuja doçura vendavaes acalma.

Teus cabellos são de ebano, tão pretos
Como a melancolia dos sonetos
Em que descrevo o meu amor adverso.

Teus pés, tuas mãos, teu corpo... Fada,
E’s a belleza personificada
Que eu emmolduro dentro de meu verso.

Arco iris (1923); Itiberê nº 35 (MAR/1922)

Nhundiacoara

Magno rio! Tal qual uma serpente
Curva, fazendo curvas, a rolar,
Vaes confundir tua agoa transparente
A’ verde escura e salsa agoa do mar.

Ao contemplar-te magestoso a gente
De subito se deixa arrebatar
E — Ophelia — vae, ao gosto da corrente,
Bellos sonhos doirados a sonhar.

Soberbo rio! O’ rio Nhundiacoara,
Nem mesmo te supplanta o proprio Nilo,
Cuja lympha recorda o Niagara!

Tu semelhas o humano coração,
Ora correndo por demais tranquillo,
Ora rugindo assim como um leão!

Arco iris (1923); Itiberê nº 44 (DEZ/1922); Sonetos do Paraná, com versos diferentes: 

Magno rio! Tal qual uma serpente
Curva, fazendo curvas, a rolar,
Vais confundir tua vaga transparente
À verde-escura ondulação do mar.

Ao contemplar-te, majestoso, a gente
De súbito se deixa arrebatar,
E — Ophélia — vai ao gôsto da corrente,
Belos sonhos azuis a edificar. 

Soberbo rio! O’ rio Nhundiaquara,
Não creio te suplante o próprio Nilo,
Sem flóreas margens, sem tua linfa clara.

O coração semelhas com tuas águas,
Ora, sonhando, a deslizar tranquilo,
Ora rugindo em convulsões de máguas!...

Meu berço

Morretes, meu torrão, solo fecundo
Regado pelo rio Nhundiacoara;
Terra em que os olhos eu abri ao mundo
Por uma de Dezembro tarde clara;

A mercê do destino, vagamundo,
Ora aqui, ora ali, que nunca pára,
Longe de ti embora, que profundo
Por ti o meu amor: ó terra cara!

Que bem que faz a dulcida lembrança
Do tempo bom! Que bom lembrar os dias
Felizes que se tem quando si é creança!

Morretes, berço meu, ó meu torrão,
Onde vivi a par das alegrias,
Como tenho de ti recordação!

Arco iris (1923); Itiberê nº 38 (JUN/1922), com o título “Morretes”; Sonetos Regionaes, também com esse título

Ruy Barbosa

De mais vivo esplendor que o diadema
Dos opulentos cezares de antanho
Vê-se-lhe á fronte augusta o fulvo estemma
Do genio, como sol de lume estranho.

Vultuoso ser que, ultrapassando a extrema
Deste amado Brasil, rico e tamanho,
Lá fóra fulgurou — preciosa gemma —
Como aurea joia que deixasse o banho...

Qual o condor remonta-se ao Hymalaia,
Alcandorou-se na aza do Talento,
Nessa tertulia do saber, em Haya.

E do alto, então, num gesto sobranceiro,
Mostrou a Patria, como um monumento,
Aos olhos pasmos do Universo inteiro.

Arco iris (1923); As Armas e as Letras do Paraná; Diario da Tarde (28/02/1910); Album do Paraná nº 10-11 (1920); Itiberê nº 47 (MAR/1923)

De longe (2)

Eu vivia a rir emquanto
Tinha-te junto de mim;
A tua ausencia, entretanto,
Deixou-me tristonho assim.

Nunca mais tive alegria
Depois que daqui partiste;
Minh’alma desde esse dia
Tornou-se uma cella triste.

Olhos em pranto e tristonho,
A’s vezes, pensando em ti,
Presumo que, esperto, sonho
Que só em sonho te vi.

O Destino, se quizesse,
Pudera poupar-me a dor
Da ausencia, que me parece
A sepultura do amor.

Embora no pensamento
Tenha-te sempre o perfil,
Pungem-me a todo o momento
As iras do fado hostil.

Ausencia — mãe da saudade,
Saudade — duro aguilhão
Que retalha, sem piedade,
As fibras do coração.

Como é triste a sorte minha!
Retorna... Quero-te aqui...
Se tardares, andorinha,
Talvez saibas que eu morri!

Itiberê nº 45/46 (JAN-FEV/1923)

Coração orgulhoso

Ao Dr. Leocadio Correia

Eu
não sei
afinal
porque este meu
coração é rei
de orgulho sem igual...
Talvez seja porque nunca
fel-o pulsar, num torvelinho,
outro amor, a não ser o que junca
de flôres ideaes o meu caminho...
Ha de ser somente porque a sorte quiz

sobre elle distender o pallio da ventura,
e me fez te encontrar, fazendo-me feliz,
qual se fôras Vesper, nessa estrada escura...
Só pode ser por isso esta vaidade...
Este orgulho real, que é maior

muito maior que a immensidade,
deu-m’o só o teu amor.
Apontando-me escolhos,
a luz, eu bem sei,
desses teus olhos
fez-me rei
do amor,
flôr!

Itiberê (JUL/1921)

Coração morto

O coração de quem ama é como uma creança...
Por que te quiz, embebedei-me ao teu fulgor
e pude alimentar a formosa esperança
de comtigo viver sob o pallio do amor!

Ingenuo, acreditei que seria bonança
a vida ao lado teu, aspirando-te o olôr,
que produz a embriaguez como um vinho de França,
dessa côma de onyx, dessa bocca de flor!

O’ cruel decepção ao saber-te fingida,
quando os olhos abri á realidade da vida,
depois de ter sonhado aos braços da Illusão!

Foi falso o teu olhar, foi falsa a tua bocca,
teu riso me mentio e mentindo-me, ó louca,
impiedosa mataste este meu coração!

Itiberê nº 62/63 (JUN-JUL/1924)

Até as flores

Mandei á Clelia uma rosa
E, tagarella, essa flôr,
Em linguagem perfumosa,
Revelou-lhe o meu amor.

Queria, em segredo, amal-a,
Mas a flôr, sendo indiscreta,
Contou-lhe, com doce fala,
A minha paixão secreta.

Mais tarde, porque fingisse
Não amar, Clelia, a sorrir,
Lançou-me os olhos e disse:
As flôres sabem mentir!

Lembrei-me então que mandara
Á Clelia uma rosa, um dia
E que essa flôr lhe contara
A paixão que eu lhe escondia.

Entanto, disse lhe: mudas
As flores são para nós,
E’ bom, pois, que não te illudas
Em pensar que ellas têm voz.

Clelia sorrio e, sorrindo,
Foi-se afastando de mim
Que via em seu rosto lindo
As rosas do meu jardim.

Sabe agora toda gente
A historia dos meus amores...
E a culpa é minha somente
Por confiar-me das flores.

Itiberê nº 28/29 (AGO-SET/1921)

A voz do pinheiro

O pinheiro falou: “Aos golpes do machado,
hoje um tombava ao chão, tombava outro amanhã...,
Ao perpassar do tempo, eu fiquei isolado
como uma sentinella em meio da rechã.

Quando juntos aqui, á nossa cópa, o alado
passaredo feliz, ao raiar da manhã,
trinava e o seu trinar casava ao magoado
canto cheio de amor da zagala louçã.

Ora vejo-me só ás borrascas exposto
— Erguidos para o céo em supplice attitude,
os verdes braços meus dizem do meu desgosto.

Zurze-me o vento, o sol caustica-me... Sosinho,
eu me assemelho a alguem cujo destino rude
fal-o pedir, em vão, a esmola de um carinho!

Itiberê nº 81 (JAN/1924), Sonetos Regionaes (1928)