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Soliloquio de um infeliz

Porque ser bom? Porque fazer o bem? Ter pena
De quem soffre, porque? si quem no peito aninha
A piedade, talvez, nesta vida terrena
Mais beba o amargo fél da desdita mesquinha!

Que importa a alheia dor tenha rugidos de hyena
E rasgue corações como garra damninha!?
No mundo quem é mau pisa um chão só de penna
Emquanto quem é bom sobre tojos caminha!

Olhemos, sem pezar, o misero casebre
Onde o mal penetrou e onde ardem em febre,
Num delirio voraz, mãe e filhos sem pão...

Ser bondoso, porque? Que vale dar a esmola
Se o ser feliz a dor dos outros não consola
E a ventura não sabe o que é ter compaixão?!

Arco iris (1923); Album do Paraná nº 7 (1920)

Ruy Barbosa

De mais vivo esplendor que o diadema
Dos opulentos cezares de antanho
Vê-se-lhe á fronte augusta o fulvo estemma
Do genio, como sol de lume estranho.

Vultuoso ser que, ultrapassando a extrema
Deste amado Brasil, rico e tamanho,
Lá fóra fulgurou — preciosa gemma —
Como aurea joia que deixasse o banho...

Qual o condor remonta-se ao Hymalaia,
Alcandorou-se na aza do Talento,
Nessa tertulia do saber, em Haya.

E do alto, então, num gesto sobranceiro,
Mostrou a Patria, como um monumento,
Aos olhos pasmos do Universo inteiro.

Arco iris (1923); As Armas e as Letras do Paraná; Diario da Tarde (28/02/1910); Album do Paraná nº 10-11 (1920); Itiberê nº 47 (MAR/1923)

Conselho do Diabo

Certa vez o Diabo veio ter commigo
E, tomando-me as mãos, disse-me: “Amigo...”

Tive um gesto de horror ante a figura
Dessa infernal e tetrica creatura!

Comprehendendo-me o medo, Belzebuth
Fixou-me os olhos: “Porque tremes tu?

“Não te infundam pavor os meus chavelhos,
“Vim te falar para te dar conselhos.

“Quer os ouça, quer não, pouco me importa.
“Dou-t’-os a ti, por que isto me conforta.”

— “Perdão... aventurei, mas eu, agora,
Não vos posso escutar; alguem, lá fóra,

A’ minha espera está... n’outro momento
Ouvir-vos-ei, com mais vagar, attento...”

Com que terror, olhando-o (unhas e rabo,
Chifres recurvos) eu falava ao Diabo!

A tremer, como creança que se espanta,
A voz quasi morria-me á garganta.

Fôra immenso prazer, se eu me livrasse
De tel-o ali, tão perto, face a face.

Que allivio ao coração, morto de susto,
Não pôr eu olhos sobre aquelle busto.

Mais um instante, eu morreria, certo,
Eu tendo-o, assim, a me falar tão perto.

Ouvil-o, horror!... A bocca, se elle a abria,
Era uma pyra, pois toda ella ardia!

Que desespero! que afflicção! que luta!
Por me conter ante essa cara bruta!

“Paciencia, amigo... Ouve-me, eu desejo
Que te seja tão doce, como um beijo,

A vida; quero ver-te satisfeito
Como quem é da f’licidade eleito.”

— “Pois bem, falae...” E o Diabo disse apenas:
“Conseguirás as venturas terrenas

“Se fores mau... Sê mau... Digo-t’o eu...”
.   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .
— Bello conselho Satanaz me deu!

Album do Paraná nº 8-9 (1920)