Mostrando postagens com marcador Bizarrias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Bizarrias. Mostrar todas as postagens

Soneto (1)

A uma peccadora

Andas a rir e rindo assim procuras
Aos outros occultar a tua dor.
Soffres, eu sei. Alguem quebrou as juras
Mentidas que te fez de eterno amor.

Amaste um cavalleiro de aventuras,
Um D. João safado, um seductor
A cuja voz tão cheia de ternuras
Te rendeste afinal, misera flor.

Polluida agora — coração em pranto —
Trazes á bocca mentiroso, emtanto,
Sorriso que disfarça essa tortura...

E fazes bem por esconder teu fundo
Pezar, que se o soubesse todo o mundo
Muito maior ser-te-ia a desventura.

Bizarrias (1908)

Enfermo insomne

Ao Generoso Borges

A noite de hontem não dormi, passei-a
Em claro, a revolver-me sobre o leito,
Sem ar, quasi a morrer... Façam ideia
Como a gente padece desse geito!

Deitei-me justamente ás 10 1/2
Horas, depois de ler um conto feito
Por um doente talvez — pagina cheia
Das dolencias de quem soffre do peito.

Ora, eu que sou tuberculoso, o termo
Do meo viver previ e mais enfermo
Fiquei em lendo aquella historia... Em summa

Não preguei olhos toda noite e, si
Vivo estou, todavia já senti
As sensações da Morte, uma por uma.

Bizarrias (1908)

Soneto de um tysico

Ao Dr. Sá Barreto

Tarantula voraz o insecto apanha
Na rede e o triste por fugir-lhe á rafa
Luta, mas a despeito de tamanha
Luta por se safar nunca se safa.

Cada vez mais na teia se emmaranha
E quando, alfim, vencido pela estafa
Immovel fica, a venenosa aranha
Vae devoral-o numa furia gafa.

Tuberculose roaz, ó tarantula
Que me prendeste a mim e, despiedada,
Talando-me os pulmões, cevas a gula...

Condemnado a morrer tão já — ó Deuses!
Vejo a morte chegar numa golfada
De sangue rubro como as apotheoses...

Bizarrias (1908)

Revoltado

Ao Socrates Quadros

Ninguem me cerca a mim... Só me vejo e sosinho
Em me vendo concebo idéas por demais
EXQUISES, tal como sahir pelo caminho
Como louco a gritar os homens são desleaes.

O vosso coração não é mais do que um ninho
Em que se aninha o mal, ó perfidos chacaes!
Todavia o dizeis suave como o arminho,
Doce como sorriso em labios virginaes.

Bem te conheço a ti que passas... por nonada
Déste n’um teo irmão (horror!) em pleno peito,
A sangue frio, o máo! profunda punhalada.

Eu sei quem sois, eu sei, não me illudis, infieis,
E por isso de vós eu fujo com o respeito
Com que me afasto, ouvi, das serpes cascaveis.

Bizarrias (1908); A Noticia (18/09/1906)

Soneto de um triste

Ao Thiago Peixoto

Atraz d’Ella, a correr, mais agil do que um gamo
Eu me vou, mas em vão... Ella foge de mim
Como o vento, veloz. Felicidade, eu clamo,
E se me perde a voz pelo espaço sem fim.

Adoravel mulher, vinde a mim que vos amo,
Aspiro vos sentir ao lado meo, assim...
Falae, eu quero ouvir cantar um gaturamo,
Ou doce harpa tangida á mão de um cherubim.

Fôra um sonho, talvez, mas quem me déra, um dia,
A’ porta de meo lar chegasseis, de surpresa,
E todo elle invadisse uma extranha alegria.

E nunca, nunca mais eu me visse tão só,
E tão cheio de dôr e cheio de tristesa,
E não mais reflectisse a desdita de Job.

Bizarrias (1908)

Origem do Amor

Ao Julio Pernetta

Segundo a Biblia Deus o mundo fez
Em 6 dias; no 7º do afan
Sentou-se a descançar, como um inglez
Sobre o fôfo velludo de um divan.

Adão no paraíso era sosinho,
E passara dess’arte a vida inteira
Si Deus se não lembrasse, com carinho,
De junto collocar-lhe a companheira.

Emquanto Adão dormia uma costella
Deus lhe tirou e fez Eva, a mulher,
A creação supinamente bella,
Embora falle d’ella quem quizer.

Ao entregar-lhe a companheira, disse:
A vida ser-vos-á, manhans e tardes,
Um eterno sorrir de meninice,
Prazer mais que prazer se não peccardes.

Que sim, falou Adão... Mas Eva, um dia,
Eu não sei se por artes de Taneco,
Se lhe mostrou radiante e — quem diria! —
Elle tentado murmurou: — eu pécco.

Contra a força não houve resistencia,
In-continente fez-se peccador...
Peccou, peccou, peccou e, consequencia,
E’ filho do peccado o Deus Amor.

Bizarrias (1908); A Noticia (23/08/1907)

Drama Eterno

(No Album de C. R. Teixeira de Freitas)

O Mundo é um grande theatro. O panno, meus senhores,
Ergueo-se uma vez só e não desceo jamais.
O scenario varia: ao Sol, tem resplendores,
E, á noite, quasi sempre, é tetrico de mais.

A Vida é o eterno drama. Uns actos são de horrores,
Outros cheios, porém, de accordes musicaes.
Intervallos não ha e nós, tristes actores,
Só deixamos o palco em demanda da Paz...

Por vezes, tendo n’Alma a escuridão da gehenna,
Pomos, por sobre o rosto, a mascara — mentira —
E tal qual Arlequim, a rir, vimos á scena.

E cada qual assim, desempenha o papel...
Um se vae, outro vem, a platéa delira,
E continua o drama — a Torre de Babel.

Bizarrias (1908); A Noticia (03/07/1907)

Pró Dama

Ao Dario Vellozo

I
Cavalleiro do Amor, dispara, a toda brida,
Em defensão da tua Dama, cavalleiro
Esporeia o corsel, vibra o tala, a corrida
Seja como um fuzil riscando o Azul inteiro.

Não ha tempo a perder para salvar-lhe a vida
Arrancando-a da mão de audaz aventureiro.
Eia, a caminho, pois! Upa! antes que, vencida,
Ella tombe, afinal, como tomba um guerreiro.

Parte, mas parte já, sem perda de um segundo,
A correr, a correr mais agil do que o vento
Cuja força brutal faz balançar o mundo.

Nada te impedirá... Na furia de procella,
Barreiras, si as houver, vencerás n’um momento.
Cavalleiro do Amor, a caminho por Ella...

II
E, sem detença, o cavalleiro, a desfilada,
Se foi, vibrando no ar — fli-flak — o pingalim.
Um louco se diria ao vel-o pela estrada
Cego aos perigos (X!) gineteando assim.

Castigarei, sem dó, tamanha audacia, nada
(Por Satan e por Deus!) me ha de impedir a mim
De castigal-o — máo! — atravessando a espada
De meio a meio o coração desse Arlequim.

... Exijo o sangue teo para remir teo crime,
Judas de Kariot, que, por dinheiro 30,
Venderias Jesus, o martyre sublime.

E, apenas acabára de falar, certeiro
Fundo golpe vibrou, deixando a espada tinta
E lançando por terra o audaz aventureiro.

III
Não se erguerá jamais. Matei-o. Todavia
Me não punge siquer do remorso o aguilhão.
O castigo foi cruel, mas a mim me cumpria
A salvo te arrancar dessa arrojada mão.

Um exemplo que fica... Em troca da ousadia
Teve a morte; morreo; eil-o morto no chão.
Alguem o chorará? Talvez — Ave-Maria! —
Nem lhe rezem por alma um triste cantochão.

Ha de marcar-lhe a cova atra † de madeira.
Qual se fôra um aviso: incautos: tende mão!
Não vos approximeis desta horrida caveira.
.    .    .    .    .    .    .    .    .    .    .    .    .    .    .    .    .    .    .
Alviçaras Formosa, alviçaras! Emfim
Tenho-te ao lado meo, numa ressurreição,
E salva, por signal, da mão dese Arlequim!

Bizarrias (1908); Diario da Tarde (17/06/1905)

Pthysica

Ao Euclides Bandeira

Ella ahi vem, esqualida, e eu me embuço
Para evital-a, em vão! Ella ahi vem,
Magra mulher, — eu vejo-a sem rebuço —
Prender-me aos braços, axphixiar-me... Dlen!

E já me sinto mal, e tusso, e tusso,
E vou ficando, assim como a cecem,
Branco e a tossir ao chão eu me debruço
Porque á tosse a fadiga sobrevem.

Orae por mim, orae por mim, Donzella,
Vae-me a vida pouco a pouco, a vela
Ponde-me á mão. Adeus! sou quasi exangue...

Meo coração, a custo, vibra agora,
O sangue vem-me á bocca e sem demora
Eu tombarei amortalhado em sangue.

Bizarrias (1908); Almanach do Paraná (1912); Diario da Tarde (11/11/1903);
como "Tisica" em Victrix nº  3 (1903)

Enigmatico

Ao Isidoro Costa Pinto

Dizem d’ella um horror... E’ raro ouvir-se alguem
Elogial-a; enfim todo mundo a maldiz.
Não n’a incensa a pobresa e, muito menos, quem
Jamais logrou dizer: um dia fui feliz.

Os ricos, muita vez, apostropham-n’a, têm
Impetos máos e (†!) murmuram cousas vis:
Lepra de Satanaz! Mal de Lazaro! nem
Vales que se te dê um quarto de luiz...

Todavia, apezar desta grita medonha,
Affagam-n’a se acaso, ella ameaça, brincando,
Fugir, tal qual um sonho alegre que se sonha.

E’ má, é muito má, é pessima e, ainda assim,
Sendo pessima e má, todos querem-n’a quando
D. Morte apparecerá annunciando o Fim!

Bizarrias (1908); Cartão Postal (1905)

Hetaira

Ao Corrêa Netto

Ora de rubro barbaro que ideia
Dá do sangue que o tysico vomita,
Ou faz lembrar a chamma que se alteia
Numa ameaça á abobada infinita...

Ora de negro — viuvinha, cheia
De saudade, a guaiar sua desdita —
Ou de branco, de azul, de verde-veia,
Ou de amarello gyrasol que grita...

E por vezes num misto... como um iris,
Chapéo em forma de um enorme pires,
Passa, cheirando a resedá e sandalo.

E nos lança ao passar, como a serpente,
Quadris a ondear, acanalhadamente,
Lubrico olhar como cartel de escandalo.

Bizarrias (1908); Poesia Paranaense em 1908; A Bomba nº 12 (30/09/1913)

Tisiphone

Ao Jose’ Ribeiro Braga

††† ! Essa mulher (Abrenuncio!) horripila,
Vomita, se abre a bocca, improperiosa e praga,
O seu olhar é como um fuzil que fuzila
Em meio á cerração das noites aziagas!

Sente-se ao contemplal-a um terror que aniquilla.
Treme-se cheio de horror, mil idéas presagas,
Ao cerebro então vem e, por elle desfila
N’um tredo marche-marche um batalhão de sagas.

De panico Satan, se a visse, tremeria.
Ella infunde pavor... Satanaz! Satanaz
Não n’a fites... Cautella, ó principe revel.

Pois não tem coração essa mulher-harpia,
Essa furia, esse monstro, essa megera, mais
Horripilante, emfim, do que uma cascavel.

Bizarrias (1908); Diario da Tarde (24/05/1905)

Satanaz

Ao Costa Queiroz

Desventurado Satanaz! De todo geito
Pintam-te a ti, chamam-te máo e fazem †
Se te presumem ver assim, de horrido aspeito,
Olhos em braza e a bocca vomitando luz...

Velhas exclamam: vade-retro! Para o leito
As creanças se vão, gritando por Jesus,
Se lhes contam de ti algum extranho feito
Atemorisador como um tiro de obuz.

Dizem que chifres tens e que tambem tens rabo,
Que da maldade és tu o suprasummo, ó Diabo!
Emprestam-te afinal, mil qualidades más.

Comtudo eu sou por ti, por te não crer perverso,
E’s um anjo revel e revel, no Universo,
Ha muita gente, como tu, ó Satanaz!

Bizarrias (1908)

Sexta-feira

Ao Florido Cordeiro

Dia de boi-tá-tás, de lobishomens, dia
Em que (contam vovós) o diabo deixa o orco
E pelas ruas anda a fazer bruxaria
Transformado num cão, ou transformado num porco.

Outr’ora, annos atraz, oração se fazia...
Velhas, no templo, a orar, arcadinhas, de borco:
“Livrae-nos bom Jesus de todo mal... Maria
Compaixão para nós e para elle um enforco”.

Forte superstição que os tempos não consomem!
Infeliz pobretão anemico ainda agora,
Entre o povo sem luz passa por lobishomem.

... Dia de Satanaz, não posso, embora queira,
Querer-te a ti, não crendo em boi-tá-tás, embora,
O’ Sexta-feira! Sexta-feira!! Sexta-feira!!!

Bizarrias (1908); Diario da Tarde (26/05/1905)

Mendiga

Ao Dr. Claudino dos Santos

Velha, muito velhinha mesmo, a coitadinha
Vergada, como um C, ou como um arco torta,
A’ caridade extende a mão, pobre velhinha
Um obulo pedindo, anda de porta em porta.

— “Por amor de Jesus á velha uma esmolinha...”
Já lhe custa falar... Pobre! Não n’a conforta
Um carinho siquer... Vive triste e sosinha
E a Dor, como um punhal, o coração lhe corta.

O lar, tinha-o feliz, mas um dia a Desgraça
Entrou-lhe porta a dentro, assim como uma traça
E tudo destroçou, deixando-a sem vintem.

Hoje, ao peso da Dor e dos annos, vergada,
A’ Caridade extende a mão escaveirada
Qual se fôra a mulher do infeliz Pedro Cem.

Bizarrias (1908); As Armas e as Letras do Paraná

Funeral de um coração

Ao Dr. Ermelino de Leão

Dão-balalão, dão-balalão, dão-balalão...
Sinos?... Ouço-os vibrando a defuntos, talvez
Tenha morrido alguem e, por essa razão,
Os sinos vibram todos juntos de uma vez.

Por quem será que dobra assim o carrilhão?
— Coveiros, homens máos, almas feitas de pez,
Abri, cantando, a cova em que o meo coração
Tem de dormir o somno eterno, ó doce ebriez.

Coitado, coitadinho, elle andava tão doente,
A chorar e a gemer continuadamente,
Sem esperança de sarar do mal atroz...

Cravou-lhe a Parca a ponta hervada do estylete.
Morreo e vae servir (quem sabe?) de banquete
Aos nojentos lacraus — terror de todos nós.

Bizarrias (1908); Victrix (1902), com a citação: "'E os sinos dobram todos juntos, | A defuntos.' (Só — Antonio Nobre)"; Stellario nº 2 (01/11/1905); Diario da Tarde (02/11/1905)

Olhos

Ao Lucídio Correia

Olhos que quasi sempre de soslaio
Me olhaes fulgindo, como fulge um raio.

Olhos que eu olho e que quando me olhaes
Chispando, em ascua, sois como punhaes...

Olhos negros de treva, mas brilhantes
Que offuscaes os mais claros diamantes.

Nacos d’aza de corvo, contas negras
Como a desolação das almas egras.

Bagos d’uva, tão pretos como pixe,
Que eu contemplo num pasmo de fetiche.

Olhos que me falaes numa linguagem
Que a alma transporta á rutila paragem...

Astros de um brilho, como brilham poucos,
Eu vos entendo bem, olhos de loucos.

Eu sei dessa loucura de desejos,
Quereis beijos e beijos e mais beijos.

Para amainar a chamma da luxuria
Pedis que eu vos oscule numa furia.

Que como um louco, cego de furor
Eu vos cegue de beijos, meu amor!

Bizarrias (1908)

Rogo ao Diabo

O’ Magestade, ó Rei do Averno,
Excommungado Satanaz,
Archanjo mau, revel eterno,
Em sendo real que a ti te apraz
Aos maus servir de protector,
Amigo fiel, não deixes tu
De proteger, que bom favor,
Este meo livro, ó Belzebuth.

Bizarrias (1908)

Dandão

Ao Raul Gomes

I
Horrível sonho... †††! ... Pesadelo
Cuja recordação
Põe-me de pé cabello por cabello,
Marmorisa-me todo o coração!

Do medo as carnes relha-me o açoite,
Parece o ar me falta
Ao lembrar que passei inteira a noite
Sob o terrível guante da ephialta.

II
Mal cerro os olhos vejo de mim rente
A Morte, por signal
Uma mulher com geito de doente
Que fugisse de um catre de hospital.

E logo após (sou eu a testemunha)
A lamina senti
Da ceifadora foice que ella empunha
Atorar-me o pescoço, bem aqui...

III
O coveiro a cantar alegre trova,
Alheio á alheia dor,
7 palmos medio, após a cova
Começou a cavar, bom cavador.

IV
Eis-me agora entre vermes sob a areia,
Com que sofreguidão
Um bando de lacraus se banqueteia
Carcomendo-me todo o coração.

V
Desta morte cruel, tal como Christo
Venho de resurgir.
Alleluia! Alleluia! Tudo isto
Não foi mais do que um sonho de Fakir!

Bizarrias (1908); A Notícia (01/07/1907)

D. Tuberculose

Ao I. Serro Azul

Vingativa mulher! Porque eu fugia
D’ella como da † foge Satan
Disse: foges de mim e em breve dia
Has de ser meo... Quem sabe se amanhan?

Ao escutar-lhe a voz cortou-me a fria
Lamina aguda de um yatagan
E tremi de pavor qual tremeria
Timida creança ao ralho da maman.

Eu bem a conhecia de sobejo,
Por isso o meo terror, temendo o beijo
Que me viria a dar — beijo fatal!

Mas cancei de correr e, membros lassos,
Ora me vou, da Tisica nos braços,
A’ cova rasa ao som do funeral...

Bizarrias (1908); A Carga (01/08/1907)