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Meu berço

Morretes, meu torrão, solo fecundo
Regado pelo rio Nhundiacoara;
Terra em que os olhos eu abri ao mundo
Por uma de Dezembro tarde clara;

A mercê do destino, vagamundo,
Ora aqui, ora ali, que nunca pára,
Longe de ti embora, que profundo
Por ti o meu amor: ó terra cara!

Que bem que faz a dulcida lembrança
Do tempo bom! Que bom lembrar os dias
Felizes que se tem quando si é creança!

Morretes, berço meu, ó meu torrão,
Onde vivi a par das alegrias,
Como tenho de ti recordação!

Arco iris (1923); Itiberê nº 38 (JUN/1922), com o título “Morretes”; Sonetos Regionaes, também com esse título

A voz do pinheiro

O pinheiro falou: “Aos golpes do machado,
hoje um tombava ao chão, tombava outro amanhã...,
Ao perpassar do tempo, eu fiquei isolado
como uma sentinella em meio da rechã.

Quando juntos aqui, á nossa cópa, o alado
passaredo feliz, ao raiar da manhã,
trinava e o seu trinar casava ao magoado
canto cheio de amor da zagala louçã.

Ora vejo-me só ás borrascas exposto
— Erguidos para o céo em supplice attitude,
os verdes braços meus dizem do meu desgosto.

Zurze-me o vento, o sol caustica-me... Sosinho,
eu me assemelho a alguem cujo destino rude
fal-o pedir, em vão, a esmola de um carinho!

Itiberê nº 81 (JAN/1924), Sonetos Regionaes (1928)