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O Artista

No gabinete, a sós, entre livros passeia
O divo artista; alfim, chega-se á mesa e pára
Olhando um “bibelot” de que a mesa está cheia:
Orpheu, tangendo a lyra, em marmor de Carrara.

Vem-lhe ao cerebro, então, de subito, uma idéa...
Senta-se, empunha a penna e, sobre a folha clara
De setineo papel, verso a verso, a epopéa
Traça, que assombra mais do que assombra o Niagara.

Deixa o calamo após e, segurando á dextra
O vellino lyrial, a recitar começa
As rimas que traçou, num diapasão de orchestra.

Noite alta. Ronda o céo a lua merencoria.
Sonha o Artista e, sonhando, é coroada por essa
Dama que, como um sol, fulge e deslumbra: Gloria.

Arco iris (1923); Fanal nº 1 (1912)

Ao luar

Venho cantar a serenata
Do meu amor á tua porta
Emquanto a lua, alva de prata,
Percorre o céo nest’hora morta.

Meu coração, doida creança,
Anda por ti a suspirar.
Quantos na rede da esperança
Vivem como elle a se embalar!

Embalde minha voz dorida
Corta da noite a doce paz!
Talvez por ti não seja ouvida
A escala triste de meus ais!

Alma inditosa a que se expande
Cantando ao luar o seu amor...
O meu amor é muito grande
Mas teu desdem ainda é maior...

Sonha feliz, emquanto eu vélo
A sós aqui, nesta hora alta.
Que te não punja um pesadelo,
Não te amargure uma ephialta.

Por te ferir como uma setta,
Não te desperte o meu cantar.
Antes sê mouca á voz do poeta
Que o seu amor canta ao luar.

Fanal nº 15-17 (ABR-JUN/1913)