Noiva

Afinal encontrei a sonhada ventura!
Em ti se me resume a vida toda agora.
Teus olhos, como sóes, innundam-me da pura
Luz que o meu coração anima e revigora.

Embala-me a tua voz, — favo cuja doçura
Sorvo, como se fosse almo nectar que irrora
Do céo e na alma cae, e, ao cahir, transfigura
A alma, que a noite ensombra, em rosicler de aurora!

Noiva, beijo-te a mão fidalga que me afaga!
Tiraste-me do peito a dôr de quem vivia
De lagrimas num mar, rolando, vaga a vaga!

Noiva, alma de minh’alma, em tuas mãos deponho
Meu coração, a rir, nesta doida alegria
De te ver junto a mim como te via em sonho!

Itiberê nº 65 (SET/1924)

Na hora do Silencio

Noite. Lá fóra
alguem anda a cantar uma canção,
ao som dum violão,
que chora
como se fosse uma alma apunhalada
pelo despreso...

Abro a janela
e vejo,
como um farol aceso
a lua
que flutua
na infinita umbela.

Parece que escuto um beijo
dado ao luar...

Em cada
nota do violão soluça um ai
de coração ferido!

Como é triste o cantar
assim á noite, quando
a terra dorme e ve-se a lua rondando
o céu, como um policia...

Vai
alma infeliz e junta o teu gemido
ao gemido daquele coração
amargurado pela dôr
do amôr!

O violão
cada vez mais
soluça e a voz
do menestrel
é uma caricia
doce, como escala de bemóes...

Paixão desfeita em ais!

O’ desespero! O’ Torre de babel
dos esquecidos da sorte!

Bendito o suicida
que se matou
porque amou
e não foi correspondido;
bendito seja o punhal
bandido
que faz bem
fazendo o mal;
bendita sejas, ò Morte;
bendito seja quem tiver
força de fazer calar aquele violão,
que chora, que soluça assim como qualquer
desventurado coração!

Correio dos Ferroviários nº 7 (ABR/1935, póstumo)

Mutação

Ao Aristides França

Lasso, como um guerreiro apóz tredo combate,
No occaso tomba o sol. De subito se espalha
Pelo Azul infinito uma tinta escarlate
Viva, como o clarão que sae de uma fornalha.

Em fogo todo o Céo... Como um toque a rebate
Pesadamente o bronzeo carrilhão bimbalha...
Passa o vento a gemer n’uma furia de orate,
E da noite afinal, desce a negra mortalha.

A terra inteira toma o aspecto de um sombrio
Campo-santo onde a Morte, — o espectro negro e frio,
Como uma ave augural suas azas espalma.

Funda desolação em tudo transparece...
Trevas... Perde-se no ar um sussuro de prece,
E o crepe da tristeza amortalha-me a alma.

Azul (1900)

Mercedes

Ao José Braga

Retumba no ar um grito estrepitoso
De acclamação, quando Mercedes passa,
A fulgir como um sol, em seu luxuoso
Coupé tirado por corseis de raça.

Como que na aza rutila do gozo
Sente-se preso, e pelo Azul esvoaça
O coração do povo, que nervoso
Brinda essa imagem fulgida da graça.

Uma explosão frenetica de palmas,
Mais accentúa o goso que essas almas
Sentem ao vel-a tão gentil passar...

Ella sorri... e em paga da ruidosa
Ovação, lança ao povo a luminosa
E captivante flor do seu olhar.

Azul (1900)

Matinal

A Ignacio Bastos

A aurora surge... Da meiga passarada
Ouve-se o canto calmo e dulçuroso.
Canto que conduz a alma lacerada
E o coração dolente e desditoso.

A um mundo de prazer... Pela explanada
Um pegureiro passa jubiloso
Cantando uma quadrinha apaixonada
Uma quadra de amor, prazer e goso.

E’ uma formosa scena deslumbrante
Que a minha penna debil, vacillante,
Não pode descrever inteiramente...

Mas para completar tão linda scena
Faltam teus olhos bellos ó morena,
E a tua doce voz surprehendente.

Sapo nº 40 (11/12/1898)

Inverno

Neva lá fóra. E’ intenso o frio! Eu tremo
Sob astrakans, tal como de terror
O condemnado, no momento extremo,
Tirita ao pé do seu executor.

Urso do Polo, eu contra ti blasphemo
Quando te sinto o rispido rigor;
Azorrague que corta a carne e eu temo
Como de Atropos teme-se o furor.

Frias as mãos, o corpo regelado,
Tremo, como um velhinho se extinguindo,
A’ semelhança de um brandão á morte...

A neve cae... O’ inverno despiedado
A’ terra dás, as arvores despindo,
Toda a desolação do Polo Norte!

Itiberê nº 60/61 (ABR-MAI/1924); O Olho da Rua (05/08/1911)

Lecticia

Ao Nicolau dos Santos

Sorrindo sempre, sempre risonha
Vejo-a. Parece que o riso mora
Dentro em sua alma virgem que sonha
E que se expande como uma aurora...

Jamais turvado, mesmo de leve
Foi pelo laivo de acre tortura,
Seu lindo rosto de rosa e neve
Onde bailando vê-se a ventura.

Ella não sabe que a dor existe...
— A dor, abutre de garra fèra,
Que a alma dolente de um pobre triste
A todo instante punge e lacera.

Chamal-a póde-se — alma de lyrio,
Alma que sonha, luz que radia
E perambula no grande Empyrio —
Dona Risonha, Dona Alegria.

Por certo pensa Dona Lecticia
Ah! forte engano pensar assim...
Que a vida é um sonho só de delicia,
Um sonho roseo que não tem fim.

Ah! mas quem sabe se essa creança
Que á flor dos labios traz a bailar
Um riso doce como a esperança
Ao mundo veio para penar?...

A vida eterno goso parece
Quando começa a resplandecer...
Mas como um sonho desapparece
Toda a alegria, todo prazer...

Ah! sim, quem sabe se essa creança
Que á flor dos labios traz a bailar
Um riso doce como a esperança
Ao mundo veio para penar?...

Azul (1900)

Lea

Ai de mim, si de teos olhos
Não fôra a bemdicta luz,
Andara, por entre escolhos,
Aos hombros levando a †...

Ser-me-ia a vida um deserto
Muito maior do que o Sahara,
E da Amargura, por certo,
O guante me estrangulara.

Adeos Risos e Alegria,
Succumbira eu de pezar,
Se viesse a faltar-me, um dia,
O affago do teo olhar.

Olhos pretos que, no trilho
Da vida, meo guia são:
Olhos, olhos cujo brilho
Nunca as estrellas terão.

No Azul, uma noite, Sirio
Brilhava, alguem me contou,
Fitaste-a; tal qual um cirio
Ella logo se apagou.

Ouvi tambem: uma guerra
Houve entre os astros, no céo,
E tu, estrella da terra,
Foste a causa do escarcéo.

De teos olhos jamais esse
Brilho se extinga ou feneça,
Pois se tal acontecesse
Eu perderia a cabeça.

Diario da Tarde (15/03/1907), como “Jansen de Capistrano”

Junto de ti...

— A’ M. N. —

Junto de ti eu sinto minha amante
Meu coração repleto de alegria
E nem sequer eu penso um só instante
Que existem maguas, flor de primazia.

Extasiado, louco e dilirante
Eu fito Márcia a tua tez macia...
Tudo p’ra mim é bello e deslumbrante,
Tudo me encanta e tudo me extasia!

Leio em teus olhos — rutilas estrellas
Que me guiam, da vida, nas procellas —
Todo o segredo que tu guardas n’alma...

E julgo que n’um céo todo estrellado,
Como n’um sonho bello, aprimorado,
Nós vivemos querida, em doce calma.

Sapo nº 38 (27/11/1898)

In memoriam

Imortal a saudade que deixaste...
Anos e anos passam-se... No entanto,
Se ora não temos lagrimas nos olhos,
Do coração jamais secou o pranto
Que a tua morte fez brotar, qual veio
Dagua que á terra exsurge de repente.
Partiste e a dôr ficou comnosco; uma haste
Fria, de ferro, o peito nos traspassa
E assim vamos, escolhos sobre escolhos,
A caminhar para o repouso eterno
Na esperança de um goso prometido...
Saudade, canto-chão da magua; seio,
Ermida do pezar, onde, dolente,
Não cessa de carpir um só minuto
O coração, como se fôra um monge,
Quando o lacera a garra da desgraça,
A semelhança de um punhal bandido!
Dois lustros faz que foste para longe,
Para esse Alem indicifravel e ainda
Temos de ti vivissima lembrança,
Porque o tempo não póde ao pensamento
Nosso arrancarte apenas um minuto.
A saudade é imortal e a dôr infinda!
Alma tarjada pelo negro luto,
Vivemos a chorar a tua ausencia,
Como se a retalhassem mil punhaes!
Uma por uma, pungem do Averno
Todas as dores neste valle imenso
Onde a alegria é bem que não se alcança
A não ser por instantes, porque a empana
Subitamente a nuvem da dolencia
E, rapido, depois, de ais em ais,
Penetramos da dôr o bosque denso.
Ah! Porque os olhos lhe cerraste, ó morte?
Bem puderas poupa-lo á furia insana
Da tua foice ceifadora; ao córte
Que a vida lhe arrancou, amortalhando,
Ao mesmo tempo, os corações outrora
Ao lado dele venturosos quando
Aquele coração ao bem afeito
Palpitava de amor junto dos seus!
Exemplo de virtudes! Pae, demora
A saudade imortal em nosso peito
Dês que foste habitar ao pé de Deus!

Arion Werneck de Capistrano (filho) 
Correio dos Ferroviários (SET/1934)

Illusão morta

I
Pluma ao vento... Cavalleiro,
por que vos vades?... Talvez
nesse andar de aventureiro
venha a quebrar-se esse arnez!

Não sois, porem, o primeiro
e nem o ultimo sereis
a caminhar, caminheiro,
com tamanha impavidez!

Ao coração, como cégo,
obedeceis e seguis,
sem o minimo temor...

Emtanto, attentae ao pégo
onde fui ter quando quiz,
como vós, glorias de amor!

II
Eu, desdenhando de tudo,
parti, ao florir dos annos,
por caminhos de velludo,
sem pensar nos desenganos.

Mas, se me quebrou o escudo,
e entrei a soffrer os damnos
de quem palmilha este rudo
trilho de cardos tyrannos.

A crença, que ia commigo,
abandonou-me em caminho,
ao ver-me tombar ao chão...

E retornei — um mendigo
de alma rôta pelo espinho
de amarga desillusão!

III
Ninguem pensa quando é moço
nos contratempos da sorte.
A mocidade é o alvoroço
de quem se alheia da morte.

Não se enxerga aos pés o fôsso
onde, de Atropos ao córte,
a vida se esvae no esboço
de um sonho de tinta forte...

Quanto sonho azul na idade
em que se vae á conquista
de um coração de mulher!

Acena a felicidade,
miragem que illude a vista
de quem alcança-la quer!

IV
Quem me visse outrora quando
fiz-me aos torneios do amor,
batera palmas, cantando
os feitos do vencedor!

Não se me dava que em bando,
num acesso de furor,
mandasse rivaes, tramando
contra o meu grande valor!

Florete á mão, á luz de helio,
ou sob o clarão de diana,
enfrentei-os, como a infieis!

Vencido, afinal, num prelio,
ao ver-me tombar, a humana
maldade esmagou-me aos pés!

V
Agora desilludido
sou de tudo deste mundo,
por que o muito que hei soffrido
deixou-me um sulco profundo...

Depois que tombei vencido
pelo Destino iracundo,
meu coração combalido
guarda a amargura no fundo.

Sonhos de amor! É da vida
cantar victorias agora
e soffrer depois o damno...

Seguio-me a Illusão na ida
e voltei — alma que chora —
pela mão do Desengano!

Coritiba — 1922.
A Flammula (JUN/1922)

Illusão

Ao Raul Darcanchy

Porque me vês sorrir pensas que trago
n’alma a alegria, como um rossinol,
a cantar... Puro engano! As mais das vezes
o riso que nos brota á flôr dos labios
não traduz o sentir do coração.
Julgamos venturosos os que soffrem
os rigores crueis de atra desdita
e apparentam viver n’um mar de rosas...
Assim tambem d’aquelles que felizes
são realmente, e, emtanto, não parecem
lamentamos a sorte tormentosa.
Nós nos illudimos mutuamente,
uns aos outros nos vemos atravez
de um prisma differente... E se não fôra
isso a vida o que fôra, se ella apenas
consiste na illusão e nada mais?

A mim, orphão de amor e de carinhos,
que valeria andar d’olhos molhados
e triste, triste como o sol no occaso,
ou como nuvens negras de borrasca?
Assim, ria-me a bocca, emquanto chora
o coração que no meu peito trago,
e me julgue feliz entre os felizes
quem se deixa illudir pela apparencia.

Curitiba – Paraná
Diario da Tarde (10/02/1905), como “Nelson de Andrade”

Idyllio

A Nestor de Castro.

Chega-te a mim fascinadora e pura
flor do meu sonho resplendente, certo
ninguem virá turbar nossa ventura
neste recanto placido e deserto.

Assim... Agora affaga-me... a frescura
de tua bocca, como um cravo, aberto,
quero sentir, emquanto com ternura
as tuas mãos ás minhas mãos aperto.

É tudo calmo... Apenas pelo infindo
espaço passam aves desferindo,
de quando em quando, dulcidos trinados.

Ellas porém, as aves, são discretas,
não costumam cantar como os poetas,
tudo o que ouvem fallar os namorados...

Almanach do Paraná (1902)

Humorismos

Num baile.

Após tão longa ausencia,
Longa, longa e penosa para mim
Que saudades curtia (ai, d. Hortencia!)
Eis que vos tenho ao lado meu, emfim.

Quantos annos distantes
Estivemos um d’outro porque a sina
Quiz separar dois corações amantes
Apunhalando-os como uma assassina.

O amor, porem, é forte
Quando é sincero como o nosso, tudo
Se affronta, não se teme nem a morte
Abroquellado neste eril escudo.

Sou tão feliz porque vos vejo ao lado
Tão fresca qual cecem...
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .
E d. Hortencia murmurou: cuidado!
Fale mais baixo, meu marido ahi vem.

Cinema, como “Hugo”

Hortencia

Hortencia
encanta-me a existencia.
A luz do seu olhar
aclara-me o caminho
que váe ter
ao solar
do prazer.
A sua voz, tão doce
como se fosse
o trinado
de um passarinho,
embala-me, á maneira de uma rede
de setim.
Mata-me a sêde
do amor
o apaixonado
beijo dessa Flor.
Ai! de mim
se não tivesse a caricia
das suas mãos de velludo,
e essa delicia,
esse beijo de amor que vale tudo

Seja sonho ou não seja, que me importa!
Essa illusão
me conforta
o coração.
Não existe
essa mulher
que me não quer
ver triste?
Supponho
que não sonho...
Irreal
ella não póde ser, por que acordado
eu a tenho tido, por signal
a meu lado.
Quanta vez
Hortencia entra-me o quarto
e dá-me a embriaguez
desse vinho de amor
de que me farto
E bebedo, adormeço,
E assim dormindo,
Teço,
como uma aranha, em torno de alva flor,
tece a sua teia,
o poema mais lindo
que já alguem compoz...
Depois,
ao despertar, procuro-a... Não n’a vejo!

Anseia
a minh’alma, em febre,
por ella e por seu beijo
capitoso,
para que me alquebre
após levar-me ao paramo de goso.

Sem Hortencia
ser-me-hia a existencia
um caminho
de espinho
que iria ter
ao Não-Ser
da Grande Paz
que ninguem quer!
Bemdita seja, pois, esta mulher
que me faz
viver, emfim,
ditoso
assim
como quem
outro desejo
não tem
afóra o do seu beijo
capitoso
como um vinho
que embriaga
e me transporta,
num adejar de passarinho,
á plaga
onde a Tristeza é morta

Inspiração dos versos que componho,
musa querida,
sonho de amor, meu grande sonho, sonho
da minha vida!

Commercio do Paraná (04/12/1921)

Historia para creanças

Era um dia uma menina
Chamada Zizi de Alvear,
Mimosa como a bonina
E meiga como o luar...

Olhos azues como o lyrio
Que floresce na charneca;
A bocca rubra de tyrio
Com dentinhos de boneca...

Cabellos em cachos de ouro
Lembrando a chuva de Zeus...
Queriam-na, como a um thesouro,
Os ternos paesinhos seus.

Era Zizi uma creança
De singular formosura...
Ao vel-a, vinha á lembrança
Um chromo litho-gravura...

Filha de pae opulento,
Gosava de trato regio;
Mimada a todo momento,
Nem siquer ia ao collegio.

De sorte que estando, um dia,
Zizi num centro selecto,
Confessou que não sabia
Uma letra do alphabeto!

A assistencia olhou-a, cheia
De grande estupefação,
E alguem disse: “fica feia
Quem não recebe instrucção”.

Zizi, nesse mesmo instante,
Disse, chorando, a seus paes:
Mandae-me á escola... Ignorante
Eu não desejo ser mais.

Por não ficar feia (aqui
Eu vos digo com prazer)
A intelligente Zizi
Já sabe ler e escrever.

Commercio do Paraná (20/03/1921)

Hercules

E’ a Fabula que diz que tu, viripotente
Heroe, prodigios mil fizeste; que mataste,
Na lagoa de Lerna, uma enorme serpente
E que o gigante Anteo nos braços esmagaste.

Com cadeias prendeste o Cerbero — valente
Guarda infernal; um touro iracundo domaste,
E do peso do céo azul e transparente
Por muito longo tempo Atlas alliviaste.

Dize-me a mim, Heroe: Por que tu não me esmagas
Assim como esmagaste o famoso gigante
Que teve a audacia de querer te subjugar?

Por que da minha dor cruel, das minhas chagas
Não me allivias tu, que livraste o possante
Atlas de ter o céo aos hombros a pezar?!...

Commercio do Paraná (21/08/1921)

Grande gala

Que faceirice... Deus!... Esse elegante
Vestido de nanzuk verde-montanha
Dá-te, crê, a apparencia captivante
De uma formosa lady da Bretanha.

Orna-te a loura cabelleira ondeante
Onde minh’alma, ás vezes, se emmaranha,
Mimosa flor — tulipa fluctuante
No Rheno azul da placida Allemanha.

Sobre o recamo e a delicada renda
Que aos indiscretos o teo collo venda,
Em espiraes de glaucas amethystas.

Pende um collar... Mas... onde vaes? persegues
Alguem? buscas alguem? dize, o que segues
O’ esculptural modelo dos Artistas...

Azul (1900)

Filha morta

Olhos cerrados para sempre... Morta
Fitando-a agora neste esquife branco
Acerado punhal a alma me corta
E a torrente de choro eu não estanco.

Tamanha dor, que balsamo a conforta,
Se da magoa se pisa o atro barranco?
Que vale o céo? Que importa o céo? Que importa
Se minha dor, olhando-a, não espanco?

Não ha consolo para a desventura
Do pae que vê tombar na noite escura
Da morte um filho que adorou na vida.

Chagado o coração pela saudade
Eterno fica; nem o tempo ha de
Cicatrizar jamais essa ferida!

Coritiba, 14-12-1912
Itiberê nº 36 (ABR/1922)

Falso amor

Porque te quiz sinceramente, agora
Arrependidas lagrimas eu verto.
O coração se me confrange e chora
A’ dor que o preme no mais duro aperto.

Doces palavras que te ouvi, senhora,
Como notas de magico concerto,
Eram mentidas e, por isso, fôra
Não escutal-as de melhor acerto.

Quem me déra os ouvidos tel-os moucos
A’ tua vóz que me embalou suave
E terna e meiga, como chilros de áve.

O teu amor... cri-o leal. O’ loucos
Homens que amaes, ouvi-me: da mulher
O coração é quarto de aluguer!

19—5—1912

A Bomba nº 4 (10/07/1913), como “Jansen de Capistrano”