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Sós!

Juntos e sós, eis-nos, enfim! Agora
Não deves ter nenhum receio... Fala!
Que a tua voz esplêndida e sonora,
Como um trinado, cante nesta sala!

A ânsia de ouvir-te o peito me devora,
E o coração, cheio de anelo, estala.
Move êsses lábios de um rubor de aurora,
Abre essa boca que a lilás trescala!

Quanto mais tardas a falar mais cresce
O meu desejo... Fala! Quero, atento,
Ouvir-te a voz de meigas vibrações...

Mas, que tens? O teu rosto se enrubece!
Tremes?... Silêncio... Ao menos um momento
Falem de amor os nossos corações!...

Azul (1900); Victrix; O Paraná Mental; Sonetos do Paraná; Stellario nº1 (1905); Diario da Tarde (08/10/1904); Commercio do Paraná (26/09/1920)

Dona Loura

Para o Euclides Bandeira

Ando no rastro
de Dona Loura...
E que ventura seguir um astro
que a alma nos doura!

Em fulvo dia
de sol eu via-a
casualmente: vi-a a sorrir
mostrando á bocca perlas de Ophir.

Roxo vestido de violeta
em cuja cinta
havia um laço de fita preta,
preta retinta...

Por sobre o collo mixto de flores,
lírios e rosas,
rosas vermelhas, lírios das cores
mais curiosas.

E dos seos grandes olhos de um doce
azul saphira
varou-me um raio como si fosse
aspera vira.

Sigo-lhe o rastro
desde esse dia...
E que ventura seguir um astro
que nos espanca a melancholia!

Curitiba, 5-9-02.

Pthysica

Ao Euclides Bandeira

Ella ahi vem, esqualida, e eu me embuço
Para evital-a, em vão! Ella ahi vem,
Magra mulher, — eu vejo-a sem rebuço —
Prender-me aos braços, axphixiar-me... Dlen!

E já me sinto mal, e tusso, e tusso,
E vou ficando, assim como a cecem,
Branco e a tossir ao chão eu me debruço
Porque á tosse a fadiga sobrevem.

Orae por mim, orae por mim, Donzella,
Vae-me a vida pouco a pouco, a vela
Ponde-me á mão. Adeus! sou quasi exangue...

Meo coração, a custo, vibra agora,
O sangue vem-me á bocca e sem demora
Eu tombarei amortalhado em sangue.

Bizarrias (1908); Almanach do Paraná (1912); Diario da Tarde (11/11/1903);
como "Tisica" em Victrix nº  3 (1903)

Funeral de um coração

Ao Dr. Ermelino de Leão

Dão-balalão, dão-balalão, dão-balalão...
Sinos?... Ouço-os vibrando a defuntos, talvez
Tenha morrido alguem e, por essa razão,
Os sinos vibram todos juntos de uma vez.

Por quem será que dobra assim o carrilhão?
— Coveiros, homens máos, almas feitas de pez,
Abri, cantando, a cova em que o meo coração
Tem de dormir o somno eterno, ó doce ebriez.

Coitado, coitadinho, elle andava tão doente,
A chorar e a gemer continuadamente,
Sem esperança de sarar do mal atroz...

Cravou-lhe a Parca a ponta hervada do estylete.
Morreo e vae servir (quem sabe?) de banquete
Aos nojentos lacraus — terror de todos nós.

Bizarrias (1908); Victrix (1902), com a citação: "'E os sinos dobram todos juntos, | A defuntos.' (Só — Antonio Nobre)"; Stellario nº 2 (01/11/1905); Diario da Tarde (02/11/1905)