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Vendo-a de novo

Hoje, dulcida Flor, que novamente
Vejo-te bella e casta como outr’ora;
Pulsa o meu coração todo contente,
Toda minha alma de prazer se inflora

O teu magico olhar resplandescente
Desfaz o véo da ausencia que apavora,
E fez dentro em meu peito alegremente
Surgir do amor a rutilante aurora.

Vieste emfim maravilhosa e pura
Rara Diva de rara formosura,
Excelsa Flor dos meus sonhares magos

E arrancaste-me d’alma agros espinhos
Com teus beijos de amor, com teus carinhos,
Com a musica febril dos teus affagos...

Sapo nº 46 (12/11/1899)

Prazer momentaneo

Quando casualmente eu fito o firmamento
Em noites de luar,
Esqueço o meu pezar, esqueço o meu tormento,
E começo a cantar

Uma doce canção que outr’ora com Corina
Eu contente cantava
Emquanto a lua bella, placida e divina
Pelo céo deslizava...

E me recordo então do meu feliz passado,
Passado tão ditoso!
E ainda penso ouvir o canto modulado
Daquelle anjo formoso.

Aquella voz suave, doce e enternecida
Que me alegrava outr’ora...
De minh’amante bella, casta e estremecida
A meiga voz sonora
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Mas quando a lua vai nas nuvens se escondendo
E a terra fica escura,
Sinto no peito meu o coração gemendo
E volta-me a tortura!

Matinal

A Ignacio Bastos

A aurora surge... Da meiga passarada
Ouve-se o canto calmo e dulçuroso.
Canto que conduz a alma lacerada
E o coração dolente e desditoso.

A um mundo de prazer... Pela explanada
Um pegureiro passa jubiloso
Cantando uma quadrinha apaixonada
Uma quadra de amor, prazer e goso.

E’ uma formosa scena deslumbrante
Que a minha penna debil, vacillante,
Não pode descrever inteiramente...

Mas para completar tão linda scena
Faltam teus olhos bellos ó morena,
E a tua doce voz surprehendente.

Sapo nº 40 (11/12/1898)

Junto de ti...

— A’ M. N. —

Junto de ti eu sinto minha amante
Meu coração repleto de alegria
E nem sequer eu penso um só instante
Que existem maguas, flor de primazia.

Extasiado, louco e dilirante
Eu fito Márcia a tua tez macia...
Tudo p’ra mim é bello e deslumbrante,
Tudo me encanta e tudo me extasia!

Leio em teus olhos — rutilas estrellas
Que me guiam, da vida, nas procellas —
Todo o segredo que tu guardas n’alma...

E julgo que n’um céo todo estrellado,
Como n’um sonho bello, aprimorado,
Nós vivemos querida, em doce calma.

Sapo nº 38 (27/11/1898)

Dia de finados

A Generoso Borges

Dia só de pezar! Em tom funereo
Geme o sino — dalão — seguidamente,
E por todo o infinito espaço ethéreo
Vae-se o écho feral, soturnamente.

Melancolico e triste e grave e serio,
Da saudade curtindo a magna ingente
A caminho do Nada — o cemiterio —
O povo segue vagarosamente.

Neste dia de crepe e de tristeza
Em que até se amortalha a natureza,
E em prantos se debulha a humanidade...

Eu, que no peito trago a Dor intensa,
Na campa onde dormita a minha Crença
Deponho um goivo, esfolho uma saudade.

Sapo nº 16 (16/04/1899); Diario da Tarde (02/11/1903)