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Hetaira

Ao Corrêa Netto

Ora de rubro barbaro que ideia
Dá do sangue que o tysico vomita,
Ou faz lembrar a chamma que se alteia
Numa ameaça á abobada infinita...

Ora de negro — viuvinha, cheia
De saudade, a guaiar sua desdita —
Ou de branco, de azul, de verde-veia,
Ou de amarello gyrasol que grita...

E por vezes num misto... como um iris,
Chapéo em forma de um enorme pires,
Passa, cheirando a resedá e sandalo.

E nos lança ao passar, como a serpente,
Quadris a ondear, acanalhadamente,
Lubrico olhar como cartel de escandalo.

Bizarrias (1908); Poesia Paranaense em 1908; A Bomba nº 12 (30/09/1913)

Coveiro

Ao Domingos Velloso

De longas barbas, olhar funereo,
coveiro mau,
porque é que habita o cemiterio
como o lacrau?

O teu aspecto... Jesus, que medo!
que medo, chi!
quando te vejo, de manhã cedo
passeando alli...

Por entre cruzes ziguezagueias,
como se fôras
negra abantesma, por noites feias,
aterradoras.

Abrindo covas, o dia inteiro
de enxada á mão,
levas a vida, negro coveiro
sem coração.

Ser desprezível, frio de pedra,
alma de pez,
ao bem esteril, onde só medra
a malvadez...

Mal, a finados, badala o sino
sorris, assim
como se ouvisses tocar um hymno
tará-tá-chim!

Almas pranteiam n’um triste pranto
desolador,
e tu, contente, cantas emquanto
choram de dor...

Mães te maldizem, rogam-te pragas
verdes, crueis
como a gangrena roxa das chagas
ou como os feis.

Homem nefasto, tambem te odeio
com odio tal,
que fôra um goso cravar-te ao seio
todo um punhal!

Jogar-te ao fundo de fundo abysmo
de fauce hiante,
ó vil, ó monstro, cujo cynismo
não ha quem cante!

Porque doente, doente, doente,
quasi a finar
ando, me lanças constantemente
cúpido olhar.

Olha, uma noite sonhei comtigo,
vi-te, a sorrir,
abrindo a valla do meu jazigo
para eu dormir.

E quando os olhos abri, me pasma
dizer-te até,
tu te sumiste, como um phantasma,
pé ante pé.

E desse sonho nunca mais pude
livre me ver,
a mal do esforço, coveiro rude,
para o esquecer...

Impressionado, por toda parte
bem te lobrigo,
embora busque sempre evitar-te
como um perigo.

Em vão me escondo, mesmo que fuja
vejo-te a ti,
coruja negra! Corta, coruja,
tirri-tri-ti!

Prompta a mortalha. Cessa o agoureiro
corte de azar...
sinto-me exhausto. Negro coveiro
podes cantar.

Bizarrias (1908); A Notícia (22/06/1908); Poesia Paranaense em 1908