E' como um pobre doente de ictericia
O sol amarellado. Causa dó
Vel-o, assim, como quem uma caricia
Supplica e não n'a tem, enfermo e só.
Hontem, radiante no Alto, uma delicia
E a fital-o, derramando em pó
Ouro a rodo... Dir-se-ia a esponsalicia
Festa da Terra e de Helio, ao sol-e-dó.
Hoje arvores fenecem como sonhos
Aureos, sonhados quando a primavera
Do amor enflora corações risonhos.
Tal como o sol, soturno e no abandono,
Se fica, porque a morte só se espera,
Ao vir da vida o doloroso outono.
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Pássaro Rubro
I
Toda manhã, apenas era nado
O sol, um rubro passaro pequeno,
De minha casa á beira do telhado,
Vinha entoar um dulçuroso threno.
E eu minutos felizes embalado
Por esse canto de harmonia pleno
Ficava, como ser afortunado
Que logra se afastar do humano ceno.
Um dia, emtanto, concebi o plano
De armar um laço ao pobre passarinho
Que se deixou incauto apresionar.
Tornei-me então o seu maior tyranno,
Arrancando-o á caricia do seu ninho,
Tirei-lhe a liberdade de voar.
II
Num carcere de arame colloquei-o,
E elle, a principio, por se ver liberto,
Se debateu no torturante anceio
De quem se encontra num momento incerto.
Alfim com a pena a conformar-se veio.
Uma manhã de sol quase encoberto,
Ao despertar senti o teu gorgeio
De goso encher-me o coração deserto.
D’ahi por diante, dia sobre dia,
Ouvi-lhe o canto; subito, porem,
Atacou-lhe da matta a nostalgia.
Entristeceu, soltei-o e nunca mais
Tornou aqui o passarinho... quem
Volta, se escapa, ao meio dos chacaes?
Toda manhã, apenas era nado
O sol, um rubro passaro pequeno,
De minha casa á beira do telhado,
Vinha entoar um dulçuroso threno.
E eu minutos felizes embalado
Por esse canto de harmonia pleno
Ficava, como ser afortunado
Que logra se afastar do humano ceno.
Um dia, emtanto, concebi o plano
De armar um laço ao pobre passarinho
Que se deixou incauto apresionar.
Tornei-me então o seu maior tyranno,
Arrancando-o á caricia do seu ninho,
Tirei-lhe a liberdade de voar.
II
Num carcere de arame colloquei-o,
E elle, a principio, por se ver liberto,
Se debateu no torturante anceio
De quem se encontra num momento incerto.
Alfim com a pena a conformar-se veio.
Uma manhã de sol quase encoberto,
Ao despertar senti o teu gorgeio
De goso encher-me o coração deserto.
D’ahi por diante, dia sobre dia,
Ouvi-lhe o canto; subito, porem,
Atacou-lhe da matta a nostalgia.
Entristeceu, soltei-o e nunca mais
Tornou aqui o passarinho... quem
Volta, se escapa, ao meio dos chacaes?
Itiberê nº 37 (MAI/1922); O Olho da Rua (08/07/1911)
Inverno
Neva lá fóra. E’ intenso o frio! Eu tremo
Sob astrakans, tal como de terror
O condemnado, no momento extremo,
Tirita ao pé do seu executor.
Urso do Polo, eu contra ti blasphemo
Quando te sinto o rispido rigor;
Azorrague que corta a carne e eu temo
Como de Atropos teme-se o furor.
Frias as mãos, o corpo regelado,
Tremo, como um velhinho se extinguindo,
A’ semelhança de um brandão á morte...
A neve cae... O’ inverno despiedado
A’ terra dás, as arvores despindo,
Toda a desolação do Polo Norte!
Sob astrakans, tal como de terror
O condemnado, no momento extremo,
Tirita ao pé do seu executor.
Urso do Polo, eu contra ti blasphemo
Quando te sinto o rispido rigor;
Azorrague que corta a carne e eu temo
Como de Atropos teme-se o furor.
Frias as mãos, o corpo regelado,
Tremo, como um velhinho se extinguindo,
A’ semelhança de um brandão á morte...
A neve cae... O’ inverno despiedado
A’ terra dás, as arvores despindo,
Toda a desolação do Polo Norte!
Itiberê nº 60/61 (ABR-MAI/1924); O Olho da Rua (05/08/1911)
Dois Polos
Ao Dircinio Juran
A noite que passou levei-a toda em sonhos.
A princípio a fulgir numa pompa de huri,
Entre ephebos gentis de semblantes risonhos
E damas como flor, num castello te vi.
Depois, presos ao chão os teus olhos tristonhos
De copioso chorar — ninguem perto de ti...
Estavas, como quem pensamentos medonhos
Não pode, amal do esforço, afastal-os de si.
Assim... eu quanta vez, dentro de um sonho bello,
Num remigio vou ter ao radioso castello
Em que mora o prazer numa plaga bendita...
E quanta vez tambem, como o balão que ao solo
De immensa altura cae, sonhando mesmo, rolo
Dos braços da Ventura aos braços da Desdita!
A noite que passou levei-a toda em sonhos.
A princípio a fulgir numa pompa de huri,
Entre ephebos gentis de semblantes risonhos
E damas como flor, num castello te vi.
Depois, presos ao chão os teus olhos tristonhos
De copioso chorar — ninguem perto de ti...
Estavas, como quem pensamentos medonhos
Não pode, amal do esforço, afastal-os de si.
Assim... eu quanta vez, dentro de um sonho bello,
Num remigio vou ter ao radioso castello
Em que mora o prazer numa plaga bendita...
E quanta vez tambem, como o balão que ao solo
De immensa altura cae, sonhando mesmo, rolo
Dos braços da Ventura aos braços da Desdita!
Balsamo
Muito soffreste ó bom Rabbi, o teo fadario
foi iniquo, ó Jesus!
De ultrages vis empós ascendeste ao Calvario
e expiraste na cruz.
Todavia, ao morrer, um lenitivo brando
tiveste a tua pena:
Desgrenhada aos teos pés, em lagrimas, chorando,
Maria Magdalena...
foi iniquo, ó Jesus!
De ultrages vis empós ascendeste ao Calvario
e expiraste na cruz.
Todavia, ao morrer, um lenitivo brando
tiveste a tua pena:
Desgrenhada aos teos pés, em lagrimas, chorando,
Maria Magdalena...
28-3-907
Olho da Rua nº 1 (13/04/1907), como “Jansen de Capistrano”
Ao som da viola
A Frederico Werneck
Eu quero crer que o teo beijo,
Se m’o déras, por ventura,
Teria o sabor do queijo
Misturado á rapadura.
Mecê me julga mendaz,
Duvida de mim, tyranna,
E a mecê eu quero mais
Que a minha egua ruana.
Não podes mais ter segredo,
Teos olhos de verde-gaio
Fallam desde manhã cedo,
São tal qual um papagaio.
Cupido rapaz travesso,
Faz alvo no coração...
Vira a gente do avesso,
De muitos tira a razão.
Tenho visto muita dama
Mas nem uma me agradou...
Por ti já fiquei de cama,
Quasi o Diabo me levou.
Se eu te não topasse um dia,
Por acaso, em meo caminho,
Presumo que ainda seria
Livre como um passarinho.
Desta paixão que redobra
De calor, eu não me escapo...
Mecê me attrahe como a cobra,
Eu me entrego como o sapo.
A Marocas de nho Jango
De mecê distante fica
No batuque do fandango
Quando a viola repinica.
Mecê na dansa dá pancas,
Quebra o corpo de feitio
Que, mal comparando, as ancas
Oscillam como um navio.
Desta nossa redondeza
A dama mais “parecida”...
Em fallando de belleza
Mecê vae de colla erguida.
Hei-de, tangendo a viola,
A todo mundo dizer
Que é mecê quem me consola
E me dá muito prazer.
Eu quero crer que o teo beijo,
Se m’o déras, por ventura,
Teria o sabor do queijo
Misturado á rapadura.
Mecê me julga mendaz,
Duvida de mim, tyranna,
E a mecê eu quero mais
Que a minha egua ruana.
Não podes mais ter segredo,
Teos olhos de verde-gaio
Fallam desde manhã cedo,
São tal qual um papagaio.
Cupido rapaz travesso,
Faz alvo no coração...
Vira a gente do avesso,
De muitos tira a razão.
Tenho visto muita dama
Mas nem uma me agradou...
Por ti já fiquei de cama,
Quasi o Diabo me levou.
Se eu te não topasse um dia,
Por acaso, em meo caminho,
Presumo que ainda seria
Livre como um passarinho.
Desta paixão que redobra
De calor, eu não me escapo...
Mecê me attrahe como a cobra,
Eu me entrego como o sapo.
A Marocas de nho Jango
De mecê distante fica
No batuque do fandango
Quando a viola repinica.
Mecê na dansa dá pancas,
Quebra o corpo de feitio
Que, mal comparando, as ancas
Oscillam como um navio.
Desta nossa redondeza
A dama mais “parecida”...
Em fallando de belleza
Mecê vae de colla erguida.
Hei-de, tangendo a viola,
A todo mundo dizer
Que é mecê quem me consola
E me dá muito prazer.
Curityba – Março – 907.
Olho da Rua nº 1 (13/04/1907), como “Bingue”
Olho da Rua nº 1 (13/04/1907), como “Bingue”
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