Mostrando postagens com marcador Nelson de Andrade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Nelson de Andrade. Mostrar todas as postagens

Illusão

Ao Raul Darcanchy

Porque me vês sorrir pensas que trago
n’alma a alegria, como um rossinol,
a cantar... Puro engano! As mais das vezes
o riso que nos brota á flôr dos labios
não traduz o sentir do coração.
Julgamos venturosos os que soffrem
os rigores crueis de atra desdita
e apparentam viver n’um mar de rosas...
Assim tambem d’aquelles que felizes
são realmente, e, emtanto, não parecem
lamentamos a sorte tormentosa.
Nós nos illudimos mutuamente,
uns aos outros nos vemos atravez
de um prisma differente... E se não fôra
isso a vida o que fôra, se ella apenas
consiste na illusão e nada mais?

A mim, orphão de amor e de carinhos,
que valeria andar d’olhos molhados
e triste, triste como o sol no occaso,
ou como nuvens negras de borrasca?
Assim, ria-me a bocca, emquanto chora
o coração que no meu peito trago,
e me julgue feliz entre os felizes
quem se deixa illudir pela apparencia.

Curitiba – Paraná
Diario da Tarde (10/02/1905), como “Nelson de Andrade”

Contraste (1)

A uma dama feliz que sempre me interroga sobre a causa da minha tristesa.

Ha corações, suavissima princesa,
Felizes e infelizes; corações
Que vivem, mas num céo azul turqueza
Cheio de estrellas e constellações.

Outros a dura, a rispida fereza
Curtem da magoa presos aos grilhões,
Sem que avistem da crença a luz accesa
Como um phanal em meio ás cerrações.

E dado seja agora um claro exemplo:
O vosso, como aquelles, é ditoso.
Desconhece o pezar, conhece o goso.

O meu, no ról dos tristes o contemplo.
Um contraste afinal... Sorris emquanto
Annuvia-me os olhos agro pranto!

Arco iris (1923); Cartão Postal (1905), como “Nelson de Andrade”