Mostrando postagens com marcador Jansen de Capistrano. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jansen de Capistrano. Mostrar todas as postagens

Noivos

A' Dona Morena

Será nossa união
.  .  .  .  .  .  .  .  .
o duetto  .  .  .  .
de um astro e um coração.
Demosthenes de Olinda

Somos noivos, emfim!
                                   Casar-nos-emos quando
o alegre passaredo
andar cantarolando
pelas virentes copas do arvoredo.

Chegada a primavera,
a terra aberta em flores,
iremos ambos nós--doce chimera--
por uma estrada cheia de fulgores,
em direção á ermida
que se avista de cá e cujo carrilhão
pela manhã convida
os fieis á oração.

A' porta o velho cura
virá nos receber
rindo, talvez, porque nossa ventura
faz almas sans vibrarem de prazer.

Em presença do altar
contrictos ambos nós,
ao chão pregado o olhar,
murmuraremos o recebo a vós.

E pelo do hymineu sagrado laço
unidos, afinal,
voltaremos de braço,
venturoso casal,
pela mesma estrada
cheia de fulgores
ouvindo alem a alegre passarada
cantar feliz uma canção de amores.

Jansen de Capistrano

N'um Leque

Posto que eu peque
ou seja audaz, meo nome quero, escripto,
deixar n'uma vareta do teo leque
esquisito.

Posto que eu peque
ou seja audaz... talvez penses em mim
emquanto tiver vida este teo leque
de marfim.

A Notícia (05/06/1907), como "Jansen de Capistrano"

Villancete (2)

MOTE
Eu, por mal de meus peccados,
Um dia vos vi e, então,
Os vossos olhos malvados
Deram-me volta à razão.

VOLTAS
Os meus olhos sobre os olhos
Vossos puz e, por azar,
Vi-me em risco nos escolhos
Desses olhos verde-mar.
E, por mal de meus peccados,
A despeito do clamor,
Ninguem me escutou os brados
Por occupar-me do Amor.

Fôra melhor que os meus olhos
Os vossos vissem jamais...
Emtanto, a fugir de escolhos,
Tragou-me abysmo voraz.
Ao ver-vos, Senhora, os vossos
Olhos, que malvados são,
Alem dos demais destroços,
Deram-me volta á razão.

Quem vos fita cae na teia...
Porque sois, por vosso olhar,
Como a lendaria sereia
Que seduzia, a cantar.
E eu, por mim, confesso agora
Que, em vos vendo como vi,
Ferido de Amor, Senhora,
Mortalmente me senti...

Villa da Magoa.
Diario da Tarde (01/10/1910), como “Jansen de Capistrano”

Trovas

Dizem que consola o pranto
Os males do coração,
E eu tenho chorado tanto
Sem lograr consolação.

Eu era alegre e sou triste
Como è triste a mulher louca.
Desde o dia em que partiste
O riso morreu-me á bocca.

Deixou-me a felicidade
Ao me deixares tambem,
Hoje vivo da saudade
Que me deixaste, meu bem.

Ainda sangra a ferida
Que me fizeste ao partir...
Ai vida, que não é vida
Quando não se pode rir!

Amores! Quem não os sabe
Não os procure saber,
Porque assim talvez acabe
Sem o pranto conhecer.

Tem caprichos o deos Eros,
Faz gozar e faz soffrer.
Por horas de agrores feros
Troca instantes de prazer.

Amei-te. Feliz minuto
Foi o minuto de amor...
Partiste... tarjou-me o luto
E choro cheio de dor.

Diario da Tarde (08/10/1910), como “Jansen de Capistrano”

Segredo

Talvez do meo amor eu te não fale nunca...
Melhor calar-t’o a ti que não déras remédio
A’ dor, que o coração, como uma garra adunca,
Me lacera feroz, enchendo-me de tedio.

Da espelunca ao bordel, do bordel á espelunca,
Como um louco, a cantar funerario epicedio,
Andarei a afogar a paixão que me junca
De estyletes o chão e me traz num assedio.

Jamais dir-te-ei, porem, como te quero, como
Por ti sinto vibrar o coração, que domo
A custo, qual se doma a panthera voraz.

Pequei por te querer e esse crime nefando
Commigo guardarei, levando-o à cova quando
Eu os olhos cerrar por não abril-os mais.

Villa da Magoa.
Diario da Tarde (23/09/1910), como “Jansen de Capistrano”

Lea

Ai de mim, si de teos olhos
Não fôra a bemdicta luz,
Andara, por entre escolhos,
Aos hombros levando a †...

Ser-me-ia a vida um deserto
Muito maior do que o Sahara,
E da Amargura, por certo,
O guante me estrangulara.

Adeos Risos e Alegria,
Succumbira eu de pezar,
Se viesse a faltar-me, um dia,
O affago do teo olhar.

Olhos pretos que, no trilho
Da vida, meo guia são:
Olhos, olhos cujo brilho
Nunca as estrellas terão.

No Azul, uma noite, Sirio
Brilhava, alguem me contou,
Fitaste-a; tal qual um cirio
Ella logo se apagou.

Ouvi tambem: uma guerra
Houve entre os astros, no céo,
E tu, estrella da terra,
Foste a causa do escarcéo.

De teos olhos jamais esse
Brilho se extinga ou feneça,
Pois se tal acontecesse
Eu perderia a cabeça.

Diario da Tarde (15/03/1907), como “Jansen de Capistrano”

Falso amor

Porque te quiz sinceramente, agora
Arrependidas lagrimas eu verto.
O coração se me confrange e chora
A’ dor que o preme no mais duro aperto.

Doces palavras que te ouvi, senhora,
Como notas de magico concerto,
Eram mentidas e, por isso, fôra
Não escutal-as de melhor acerto.

Quem me déra os ouvidos tel-os moucos
A’ tua vóz que me embalou suave
E terna e meiga, como chilros de áve.

O teu amor... cri-o leal. O’ loucos
Homens que amaes, ouvi-me: da mulher
O coração é quarto de aluguer!

19—5—1912

A Bomba nº 4 (10/07/1913), como “Jansen de Capistrano”

Fagulhas

I
Beijei-te. O beijo primeiro
Sabe a mel.
Ah! não chegue o derradeiro
Que é de fel.

II
Acreditei na ventura
Um dia em que fui feliz,
Mas o goso pouco dura
E só durou-me a ventura
O que dura a flor de liz.

III
A apparencia tanto illude
Que me julgam venturoso.
Ah! quanto ser sem virtude
Que passa por virtuoso!

IV
Sonhos bons e pesadelos
Tive-os distante de ti.
Aquelles nem sei dizel-os,
Destes nunca me esqueci.

V
Choras? Signal de acre magoa
O teo pranto pode ser,
Porem de olhos cheios de agoa
Tambem se sente prazer,
Assim como, riso aos labios,
Da magoa crueis resabios
A gente busca esconder.

VI
As juras não valem nada
Quando as profere a mulher.
Si queres perder a amada
Fal-a jurar que te quer.

VII
Ninguem se queixe da vida
Por só durar um momento.
Si ella fôsse mais comprida
Maior fora o soffrimento.

VIII
Tive amores, mas agora
Não os tenho. Como flor
nasceram, nascendo a aurora,
Morreram ao sol se pôr.

IX
Dessa tua alma o mysterio
Certa vez desvendar quiz,
E, apezar do esforço serio,
Della não logrei o X.

Trabalha em vão, perde a calma,
O psychologo que quer
Saber os segredos da alma
Da mulher.

X (Sinas Iguaes)
Temos sinas iguaes. Tu, fulvo heliotropio,
Enamorado pelo sol segue-lhes o rastro,
E eu, por amor, num sonho bom, num sonho de opio,
Sigo na terra, como tu, tambem um astro.

Dirás que não ha luz que supplante a solar.
Mentira, eu te direi. Queres prova? Vaes tel-a:
De mais vivo fulgor, no mundo sublunar
Em que vivemos nós, eu conheço uma ESTRELLA...

Diario da Tarde (26/11/1910), como “Jansen de Capistrano”; Commercio do Paraná (21/08/1921), apenas o canto X com título “Sinas Iguaes”

Epitaphio de uma lyra

De menos um poeta e uma lyra de menos.
Versos? Fil-os, porém não os farei jamais.
O’ cachopas gentis de semblantes morenos
Esquecei-vos de mim e dos meus madrigaes.

E vós loiras que sois formosas como a Venus
De Milo, e tentadoras como Satanaz,
Fazei por olvidar apaixonados threnos
Que em vossa honra cantei em noites outonaes.

Certo outros menestreis, outros bardos ao ver-vos
Felizes sentir-se-ão e, eleitos das Camenas,
Poemas hão de compor cheios de febre e nervos.

Eu, no emtanto, — uma Esphinge — indifferente aos vossos
Encantos feminis, contemplarei apenas
Da minha lyra amada os ultimos destróços.

Diario da Tarde (26/03/1904), como “Jansen de Capistrano”

Epistola amorosa

Como me encheu de jubilo e de magoa
A tua carta pequenina; ao lel-a
Os olhos se me encheram todo d’agoa
Ao mesmo tempo que (como se a estrella
Mais brilhante do Azul, a luz radiosa
Por sobre mim lançasse de uma vez
E me envolvesse em luz...) a alma ditosa,
Palpitou-me em suave embriaguez.

Deu-me prazer, porque de quem se estima
A letra basta para dar prazer.
Nem preciso se faz que seja opima
A carta e grande seja a mais não ser.
Breve palavra só é uma caricia,
Doce consolo a quem a lê, ó Flor,
E leva a gente, ás azas da delicia,
A’ alva região mirifica do Amor.

Entristeceu-me... A gaze da tristeza
O coração ensombra quando alguem
Como tu, interroga na incerteza
De que eu ainda te quizesse bem.
Como não te querer? Neste retiro
Não te posso esquecer um só momento
E — crê — louco de amor por ti suspiro,
Sem poder te tirar do pensamento.

A’s vezes, me parece que te vejo,
Qual uma flor extranhamente rara,
O’ bella encarnação do meu desejo
Por quem a vida mesmo não poupara.
E saio — mas, em vão — no teu encalço
(Como apraz se sonhar!) e finalmente
Accordo como que de um sonho falso
Com teu perfil a me bailar na mente.

Domingo ainda pela manhã cedo,
Na hora da missa na pequena ermida,
Pareceu-me te ver (não é brinquedo)
De rubro perpassar toda vestida.
Semelhavas, assim, loura rainha,
Rico manto de purpura arrastando,
E sem cortejo, e rutila, e sosinha
Qual tangará que se apartou do bando.

Cheguei a ouvir a inveja, exasperada,
Dizer de ti mil cousas tão crueis
Como o puz de uma chaga gangrenada
Ou como os travos asperos dos fiéis.
E nada disse, emtanto... e nem covarde
Fui por isso... Bem sabem, meu amor,
Que á inveja, embora grite com alarde,
A gente sempre faz de mercador.

Deixei-a blasphemar porque, de resto,
Fôra inutil tentar tapar-lhe a bocca.
De que valera, dize-me, um protesto
Contra as loucuras de uma pobre louca?
E’s bella e virtuosa e é quanto basta...
A inveja é má. Virtude e formosura
Ella as detesta e, quando pode, arrasta
Ambas pelo caminho da amargura.

Só agora reparo que enfadonho
Vou me tornando, em te fazendo, assim,
A descripção real de irreal sonho
Que quasi sempre me persegue a mim.
Mas, bem sabes, amor, na soledade,
O coração deserto de prazer,
Emquanto escrevo amaina-me a saudade
E me custa parar de te escrever.

Perdoa-me, portanto, minha amada,
Se monotono fui e, por favor,
Não mais perguntes á alma apaixonada
Se ainda te consagra o mesmo amor.
Póde o fero destino me atirar
A’ mais triste e longinqua solidão,
A ausencia nunca, nunca ha de esfolhar
A flor do affecto do meu coração.

Villa da Magoa – 1907
Arco iris (1923); A Noticia (11/07/1907), como “Jansen de Capistrano”

Perversidade

(A proposito da caça de cães)

O molosso fiel de antigas eras,
O velho amigo da família humana.
Guerra Junqueiro

INHUMANO FISCAL É QUEM DIRIGE A ESCOLTA...
A’ boléa do carro, em forma de capoeira,
Um velho, rédea á mão... e a garotada em volta,
Num berreiro, a berrar como num zé-pereira.

Mal surge, ao longe, um cão a molecagem solta,
Em coro, um grito: O’ lá! O “caçador” se abeira
Do rafeiro infeliz, joga laço... O’ revolta!
O’ gana de fallar como uma regateira!

“E o molosso fiel”, o nosso leal amigo,
Preso á gorja se extorce e gane (causa dó)
Por se ver agarrado e prever o castigo...

Mas, alfim, se resigna e, aos trancos, vae levado
Dentro do carro, assim paciente como um Job,
Que ao patíbulo ascende e morre sem peccado.

Arco iris (1923); Diario da Tarde (05/02/1907), como “Jansen de Capistrano”

Resurreição (1)

De novo a lyra empunho e invoco a Musa para
Cantar-te, D. Flor de meigos olhos pardos.
Eis-me, pois, outra vez no ról que abandonara
Dos loucos menestreis, dos infelizes bardos.

Apupe-me — que importa! — a burguezia ignara,
Irei, pés a sangrar, o caminho tem cardos,
Por ti, Dama gracil, cujo olhar fina xara
Traspassa o coração como aguçados dardos.

Pró Bello e pró Amor, volta um soldado à linha...
Acaso póde alguem fugir a tentação
De uns olhos de mulher radiantes como um astro?...

Nem Satanaz, talvez... Quem se não amesquinha
E não n’a segue, emfim, arfante o coração,
Qual cobra pelo chão a se esfregar de rastro?...

Arco iris (1923); Diario da Tarde (08/03/1907), como “Jansen de Capistrano”

Cantigas (1)

Magoas — tem-n’as todo mundo,
Mas quero crer que ninguem
Sinta um pezar tão profundo
Como eu o sinto, meu bem.

Tu bem sabes que eu te amo
Com desmedido fervor,
Embalde, porem, te chamo
Num desespero de amor.

Não dás ouvido ao meu grito
E eu sorvo taças de fél...
Augmenta a afflicção do afflicto
O teu descaso cruel.

Atlante, vergado ao peso
Do mundo menos soffreu
Do que, teu feroz despreso
Supportando, soffro eu.

Esses teus labios de tyrio
Si se abrissem para mim,
Ao meu immenso martyrio
De prompto dariam fim.

O crepe que a alma me encobre
Um teu olhar rasgaria
E eu, que de affectos sou pobre,
Ricos de affectos seria...

E’s surda, emtanto, ao reclamo
Do meu amor tão profundo,
E eu soffro, porque te amo,
As magoas todas do mundo.

Arco iris (1923); Diario da Tarde (MAR/1910), como “Jansen de Capistrano”

Cantares

Ao ouvir-te a voz cantante,
De harmonia sempre cheia,
Penso ser o navegante
Ouvindo a voz da sereia.

As flores, se, acaso, as fitas
Com teos dois olhos de nume,
Se finam nas exquisitas
Contorsões de acre ciume.

Ao ver-te o rubro dos labios,
Uma dhalia, meo amor,
Sorveo do fél os resabios
E se tornou incolor.

Os teos cabellos de um louro
Como igual não ha, creança,
Do Deos Jove a chuva de ouro
Trazem-me logo á lembrança.

Murmuro sempre que passas,
Tão fresca qual uma aurora:
Noutro tempo houve tres Graças,
Uma só existe agora.

Contanto que nunca o salto
Da tua bota fosse ao chão,
Preferira sobre o asphalto
Jogar o meo coração.

Se eu fosse millionario
Tudo déra — ó sorte louca!
Em troca do alvo rosario
De perlas da tua bocca.

As moças de ti tem gana,
O ciume fal-as assim...
E’ grande a cobiça humana,
A inveja matou Caim.

Diario da Tarde (02/04/1907), como “Jansen de Capistrano”

Barcarola

A’ plaga azul da Chimera,
Da ventura sobre o mar,
Vae a dourada galera
Do meu dourado sonhar.

Meu coração, timoneiro
Embevecido, a cantar,
Não vê ao longe o pampeiro
Que não demora chegar.

O mar sem ondas, parece
Calmo lago em vez de mar.
Singra a galera... Anoitece.
Brilha no céo o luar.

Meu coração, timoneiro,
Feliz, feliz a cantar,
Nem adivinha o pampeiro
Que não demora chegar.

Morre a lua. O céo se offusca,
Toma aspecto tumular!
O mar (que mudança brusca)
Ruge e pega a se encrespar.

Meu coração, timoneiro,
Que adormecera a cantar,
Aos regougos do pampeiro,
Accorda a se estremunhar.

Como fugir dos escolhos?
Como os syrtes evitar?
Que é do clarão desses olhos?
Que é do pharol esse olhar?

Meu coração, timoneiro,
Bem podia adivinhar
Que não escapa ao pampeiro
Quem se aventura no mar...

Ventura? ...Célere passa
Como corisco pelo ar!
Grasna o corvo da desgraça,
Fenece a flor do sonhar.

Meu coração, timoneiro,
Entristecido, a chorar,
Vê, á sanha do pampeiro,
A galera sossobrar...

Arco iris (1923); A Noticia (30/07/1907), como “Jansen de Capistrano”; Commercio do Paraná (24/04/1921)

Balsamo

Muito soffreste ó bom Rabbi, o teo fadario
foi iniquo, ó Jesus!
De ultrages vis empós ascendeste ao Calvario
e expiraste na cruz.

Todavia, ao morrer, um lenitivo brando
tiveste a tua pena:
Desgrenhada aos teos pés, em lagrimas, chorando,
Maria Magdalena...

28-3-907

Olho da Rua nº 1 (13/04/1907), como “Jansen de Capistrano”

Arrufos

A chuva cáe ás bategas lá fóra
E eu, á janella, a olhar... Subito, Flora
Surge a correr, molhada como um pinto,
Arrepanhando a saia... Em vendo-a sinto
Louca vontade de me rir. Parece
Que a alma da gente, ás vezes, endoidece
E como doida ri... De novo a ólho
E num riso, que canta, me desfolho,
Tal o vento uma flor desfolha, quando
Perpassa, como cão damnado, uivando.

E eu sei porque razão acho-lhe graça
E murmuro: bem feito! por pirraça,
E rio, e rio loucamente emfim,
Ao vel-a perpassar pingando assim...

Após reflicto
E da garganta solta-se-me um grito:
Olá!
E Flora, que é formosa mas é má,
Ouve-me a voz e, conhecendo-a embora,
Nem se volve, siquer,
E vae correndo pela rua afóra
Numa curta corrida de mulher.

Medito: devo ou não seguir-lhe a pista?
Claro que sim... Pego o chapéo e saio
Mais ligeiro, talvez, do que o cyclista,
Porem menos um pouco do que o raio.
Alcanço-a sem demora
E, com tremula voz, digo-lhe assim:
Queira saber, altissima senhora,
A causa porque vim...

E Flora, que é formosa, mas que tem
Um genio máu, me fita
Com olhar de desdem
E, raivosa, no ar a destra agita.

Insisto, todavia,
E Ella, sem zanga já, meiga afinal,
Olha-me e ri, assim como eu riria
Em frente de um jogral...

E, unidos, vamos, pela rua afóra,
Sob os olhos da gente que interpella,
Por não saber que Flora
E’ minha noiva e que eu sou noivo d’Ella.

1903.

A Noticia (06/07/1907), como "Jansen de Capistrano"; Commercio do Paraná (17/07/1921)

Amor desfeito

As ferropeias deste amor violento
Parto-as agora por fugir-te ao jugo.
Seja formal o nosso rompimento
E me refugues como eu te refugo.

Basta de magoa, basta de tormento.
Do coração as lagrimas enxugo.
Para mim viverás no esquecimento
Mulher, que foste o meu cruel verdugo!

Jamais os olhos meus por-te-ei em cima
Plebeia, que arranquei dentre as plebeias,
Collocando num solio á minha rima!

Não mais ser-te-ão um pedestal de estatua
Os versos meus; faltando-te epopeias,
Has de rolar como uma cousa fatua!

Arco iris (1923); Diario da Tarde (08/09/1910), como “Jansen de Capistrano”, com a nota “Villa da Magoa”; Commercio do Paraná (22/05/1921)