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A Caçada

I

E’ noite ainda e esperto já no quarto
Estou. Quero dormir e não consigo
A’ idéa de caçar, como se farto
Estivesse do somno, que eu bemdigo.

Olho ás horas... São trez menos um quarto.
... Agora, sim... Espera-me um amigo...
Ponho a espingarda a tiracollo e parto
A’ semelhança de um monteiro antigo.

Aos primeiros clarões da madrugada,
Emmaranhados em virente enxara
Estamos, quaes bandidos de emboscada.

Os passaros accordam numa festa
E, ouvindo-os, nem um tiro se dispara
Contra a alma sonorosa da floresta.


II

Porque malvado ser tirando a vida
Dos meigos passarinhos, cujo canto
Para quem traz a alma dolorida
Tem a virtude de um remedio santo?

Porque fazer calar essa sentida
Musica suave que recreia tanto
E, num transporte, leva á indefinida
Região azul mirifica do encanto?

Alguem, acaso, dulcido recreio
Julga o matar alacres passarinhos
Perversamente lhe varando ao meio

O pequenino coração? Talvez.
Ha muitas almas brancas como arminhos,
Ha muitas almas negras como pez!

Arco iris (1923), Diario da Tarde (09/07/1910)

A Bandeira

Aos brazileiros meos patricios

Auri-verde pendão, sacro estandarte
E’s a Patria: por ti, contentes, nós
Exporemos o peito ao bacamarte
Como o fizeram já nossos avós.

Se fôr mister, ao campo do deus Marte
Iremos ter alígeros, á voz
Primeira, cada qual um Bonaparte
Sendo na guerra que revela heroes.

Sim! Si o inimigo te ultrajar um dia,
Nós, que temos por ti sincero culto,
Fal-o-emos reparar com sangue o insulto.

Guardar a affronta importa cobardia...
Ninguem te ultrajará, santa Bandeira,
Emquanto houver uma alma brazileira.

Diario da Tarde (15/06/1910); 
Commercio do Paraná (19/11/1912), com versos differentes:
Sim! se o estrangeiro te offender um dia, 
Nós, que temos por ti estranho culto, 
Fal-o-emos resgatar com sangue o insulto.

...That Is The Question

Ao Dr. Petit Carneiro

Descrente, ás vezes, penso: a Morte fôra
Superno gaudio, para mim, se já
Viesse, foice á mão, e ceifadora
D’aqui me transportasse para Lá...

Outras vezes, porem, deslumbradora
Como a corôa rutila de um Schá,
A vida se me mostra e, crente, estoura
A’ minha bocca uma risada — ah! ah!

E — novo Hamlet — a duvida me assalta
Tal qual, á noite, horrivel ephialta
Que nos enche de pasmo o coração.

Ora creio e descreio... Uma esperança
Fulgura e logo apóz o Tedio avança...
... Morrer ou não morrer — eis a questão.

Bizarrias (1908), Diario da Tarde (12/09/1905)

"O Major"

mísero aleijado que se arrastava pelas ruas da cidade.

Andava por ahi se arrastando... Um aborto
Era da natureza o pobre que,
Mãos tortas, pernas tortas, todo torto,
Causava pena a quem o via. De

Improviso se foi, não mais, absorto,
Em cima delle se poz olhos e
Ninguem sabe explicar se o triste é morto
Ou se é vivo... O caso é que se o não vê.

Deos permitta que tenha elle morrido
E na valla commum seu esqueleto
Entre outros esqueletos esquecido

Esteja. Antes assim. Não morre — vive
Quem sem provar da vida o mel de hymeto
Róla da morte no ultimo declive.

Arco iris (1923), Diario da Tarde (24/06/1909)