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Na hora do Silencio

Noite. Lá fóra
alguem anda a cantar uma canção,
ao som dum violão,
que chora
como se fosse uma alma apunhalada
pelo despreso...

Abro a janela
e vejo,
como um farol aceso
a lua
que flutua
na infinita umbela.

Parece que escuto um beijo
dado ao luar...

Em cada
nota do violão soluça um ai
de coração ferido!

Como é triste o cantar
assim á noite, quando
a terra dorme e ve-se a lua rondando
o céu, como um policia...

Vai
alma infeliz e junta o teu gemido
ao gemido daquele coração
amargurado pela dôr
do amôr!

O violão
cada vez mais
soluça e a voz
do menestrel
é uma caricia
doce, como escala de bemóes...

Paixão desfeita em ais!

O’ desespero! O’ Torre de babel
dos esquecidos da sorte!

Bendito o suicida
que se matou
porque amou
e não foi correspondido;
bendito seja o punhal
bandido
que faz bem
fazendo o mal;
bendita sejas, ò Morte;
bendito seja quem tiver
força de fazer calar aquele violão,
que chora, que soluça assim como qualquer
desventurado coração!

Correio dos Ferroviários nº 7 (ABR/1935, póstumo)

In memoriam

Imortal a saudade que deixaste...
Anos e anos passam-se... No entanto,
Se ora não temos lagrimas nos olhos,
Do coração jamais secou o pranto
Que a tua morte fez brotar, qual veio
Dagua que á terra exsurge de repente.
Partiste e a dôr ficou comnosco; uma haste
Fria, de ferro, o peito nos traspassa
E assim vamos, escolhos sobre escolhos,
A caminhar para o repouso eterno
Na esperança de um goso prometido...
Saudade, canto-chão da magua; seio,
Ermida do pezar, onde, dolente,
Não cessa de carpir um só minuto
O coração, como se fôra um monge,
Quando o lacera a garra da desgraça,
A semelhança de um punhal bandido!
Dois lustros faz que foste para longe,
Para esse Alem indicifravel e ainda
Temos de ti vivissima lembrança,
Porque o tempo não póde ao pensamento
Nosso arrancarte apenas um minuto.
A saudade é imortal e a dôr infinda!
Alma tarjada pelo negro luto,
Vivemos a chorar a tua ausencia,
Como se a retalhassem mil punhaes!
Uma por uma, pungem do Averno
Todas as dores neste valle imenso
Onde a alegria é bem que não se alcança
A não ser por instantes, porque a empana
Subitamente a nuvem da dolencia
E, rapido, depois, de ais em ais,
Penetramos da dôr o bosque denso.
Ah! Porque os olhos lhe cerraste, ó morte?
Bem puderas poupa-lo á furia insana
Da tua foice ceifadora; ao córte
Que a vida lhe arrancou, amortalhando,
Ao mesmo tempo, os corações outrora
Ao lado dele venturosos quando
Aquele coração ao bem afeito
Palpitava de amor junto dos seus!
Exemplo de virtudes! Pae, demora
A saudade imortal em nosso peito
Dês que foste habitar ao pé de Deus!

Arion Werneck de Capistrano (filho) 
Correio dos Ferroviários (SET/1934)

Fabula

Pensei que fôsse bobagem,
mas o facto é que uma vez
fizeram camaradagem
um rato e um gato maltez.

E o rato, ingenuo, no gato
acreditou e, eu vos digo,
o bichano para o rato
gosava fôros amigos.

Um dia, porem, estando
o rato quasi a dormir,
o gato assaltou-o quando
era em vão tentar fugir.

Propalado, emfim, o facto,
não houve mais, eu vos digo,
entre os ratos um sò rato
que confiasse no amigo!

Moralidade:
Quem ouve, por inexperto,
os gatos que calças têm,
muitas vezes vem, por certo,
a ser comido tambem.

Correio dos Ferroviários nº 2 (AGO/1934, póstumo)

Decalogo

1º — Filhos meus, estudai; amai o estudo.
O livro é um sól; dá luz; saber é tudo.

2º — Fazei o bem quando puderdes nem
Que seja por pagardes mal com bem.

3º — Não zombeis do infeliz; a alheia dôr
Respeitando dareis prova de amor...

4º — Nunca fecheis o ouvido ao bom conselho;
Da bôa ação fazei o vosso espelho.

5º — Sêde retos na vida; os maus caminhos
Evitai porque são cheios de espinhos.

6º — Não vos seduza o ouro do avarento,
Ouro que as mais das vezes é tormento.

7º — Sêde simples; o luxo, que é fictício
Quasi sempre conduz ao precipicio.

8º — Nunca mintais; lembrai-vos que a verdade
E’ como sol de extranha claridade.

9º — Para serdes felizes na existencia,
Deveis agir conforme á consciencia.

10º — Da honra fazei escudo e, abroquellados
Assim, durante a vida sêde honrados.

Co. 1920.

Correio dos Ferroviários nº 4 (JAN/1936, póstumo)