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Hymno a´ Imprensa

Salve Deusa immortal cujo brilho
Se enfunde com o brilho do sol!
Salve Imprensa! Phanal sobre o trilho
Que conduz a logares de escol!

(Estribilho): Qual astro que erra
No céo sem fim,
Tambem na terra
Brilhas assim.

Gutenberg sonhou-te radiante!
E, sonhando-te assim, seu ideal
Era ver-te fulgir cada instante
Como um astro de luz immortal!

(Estribilho)

Mensageira do Bem, mensageira
Do talento, da paz e do amor,
Onde quer que tu’ vás fica a esteira
Fica a esteira de teu resplendor!

(Estribilho)

E’ por ti que se afere de um povo,
Porque espalhas a luz do saber!
Salve, Imprensa, Phanal sempre novo
Cuja luz sempiterna ha de ser!

(Estribilho)

Apotheose da revista “O Jornal”
Commercio do Paraná de 06/03/1921

Vias estreitas

Foi estreitada a praça do Mercado
numa das ruas lateraes. Estreita
ficará Riachuelo, onde se ageita
amplíssimo passeio de um só lado.

Já teve a rua Quinze o mesmo fado
e a Floriano e as mais outras. Desta feita
a Prefeitura, impavida, as sugeita
ao mesmo recto e regular traçado.

Cada rua trará, com tal criterio,
vastissimas calçadas ás ilhargas
e perigo aos vehiculos, bem serio:

De taes verdades com tamanhas cargas,
pode a gente affirmar sem dispauterio
que o Prefeito detesta as vias largas.

Commercio do Paraná (02/06/1914), como “Gil Vaz”

Versátil

Um coração tristonho muitas vêzes
Ri às bandeiras despregadas, ri
Esquecido, o infeliz, de que os revezes,
Como bandidos, andam por aí...

O meu é assim. Após mêses e mêses
Passar chorando, basta ao pé de ti
Me vêr para olvidar as acres fezes
Das tôrvas amarguras que sofri.

A saudade é um punhal. Quando distante
Estás de mim, êsse punhal, afeito
A ferir, me golpeia, lacerante.

Mas, se te avisto, eis o meu mal desfeito:
Sinto, qual se endoidasse num instante,
Rindo e cantando o coração no peito!

A Noticia (20/12/07), com o título “Soneto”;
Commercio do Paraná (22/05/1921), com o título “Transformação”

Vaidade castigada

Madrigaes, a granel, fizeram-lhe os poetas,
Quando em pleno esplendor da mocidade; emtanto
Porque se via assim requesitada, secretas,
Fundas magoas causou e causou muito pranto.

Almas cheias de amor, palpitando, inquietas,
Seguiam-na, tal qual segue ao sol o helianto,
E sardonica, a rir, insensivel ás settas
De Eros, Diva suppunha immortal seu encanto.

Houve justas crueis por sua causa: duellos
Rubros entre rivaes, que brandiam cutellos
E loucos de furor se queriam matar!

Fez triumphal ascenção de remigio em remigio,
Entre cantos de amor... Ephemeros fastigios!...
E’ sombra do que foi! Belleza é fumo no ar!...

Commercio do Paraná (21/08/1921)

Sós!

Juntos e sós, eis-nos, enfim! Agora
Não deves ter nenhum receio... Fala!
Que a tua voz esplêndida e sonora,
Como um trinado, cante nesta sala!

A ânsia de ouvir-te o peito me devora,
E o coração, cheio de anelo, estala.
Move êsses lábios de um rubor de aurora,
Abre essa boca que a lilás trescala!

Quanto mais tardas a falar mais cresce
O meu desejo... Fala! Quero, atento,
Ouvir-te a voz de meigas vibrações...

Mas, que tens? O teu rosto se enrubece!
Tremes?... Silêncio... Ao menos um momento
Falem de amor os nossos corações!...

Azul (1900); Victrix; O Paraná Mental; Sonetos do Paraná; Stellario nº1 (1905); Diario da Tarde (08/10/1904); Commercio do Paraná (26/09/1920)

Hortencia

Hortencia
encanta-me a existencia.
A luz do seu olhar
aclara-me o caminho
que váe ter
ao solar
do prazer.
A sua voz, tão doce
como se fosse
o trinado
de um passarinho,
embala-me, á maneira de uma rede
de setim.
Mata-me a sêde
do amor
o apaixonado
beijo dessa Flor.
Ai! de mim
se não tivesse a caricia
das suas mãos de velludo,
e essa delicia,
esse beijo de amor que vale tudo

Seja sonho ou não seja, que me importa!
Essa illusão
me conforta
o coração.
Não existe
essa mulher
que me não quer
ver triste?
Supponho
que não sonho...
Irreal
ella não póde ser, por que acordado
eu a tenho tido, por signal
a meu lado.
Quanta vez
Hortencia entra-me o quarto
e dá-me a embriaguez
desse vinho de amor
de que me farto
E bebedo, adormeço,
E assim dormindo,
Teço,
como uma aranha, em torno de alva flor,
tece a sua teia,
o poema mais lindo
que já alguem compoz...
Depois,
ao despertar, procuro-a... Não n’a vejo!

Anseia
a minh’alma, em febre,
por ella e por seu beijo
capitoso,
para que me alquebre
após levar-me ao paramo de goso.

Sem Hortencia
ser-me-hia a existencia
um caminho
de espinho
que iria ter
ao Não-Ser
da Grande Paz
que ninguem quer!
Bemdita seja, pois, esta mulher
que me faz
viver, emfim,
ditoso
assim
como quem
outro desejo
não tem
afóra o do seu beijo
capitoso
como um vinho
que embriaga
e me transporta,
num adejar de passarinho,
á plaga
onde a Tristeza é morta

Inspiração dos versos que componho,
musa querida,
sonho de amor, meu grande sonho, sonho
da minha vida!

Commercio do Paraná (04/12/1921)

Historia para creanças

Era um dia uma menina
Chamada Zizi de Alvear,
Mimosa como a bonina
E meiga como o luar...

Olhos azues como o lyrio
Que floresce na charneca;
A bocca rubra de tyrio
Com dentinhos de boneca...

Cabellos em cachos de ouro
Lembrando a chuva de Zeus...
Queriam-na, como a um thesouro,
Os ternos paesinhos seus.

Era Zizi uma creança
De singular formosura...
Ao vel-a, vinha á lembrança
Um chromo litho-gravura...

Filha de pae opulento,
Gosava de trato regio;
Mimada a todo momento,
Nem siquer ia ao collegio.

De sorte que estando, um dia,
Zizi num centro selecto,
Confessou que não sabia
Uma letra do alphabeto!

A assistencia olhou-a, cheia
De grande estupefação,
E alguem disse: “fica feia
Quem não recebe instrucção”.

Zizi, nesse mesmo instante,
Disse, chorando, a seus paes:
Mandae-me á escola... Ignorante
Eu não desejo ser mais.

Por não ficar feia (aqui
Eu vos digo com prazer)
A intelligente Zizi
Já sabe ler e escrever.

Commercio do Paraná (20/03/1921)

Hercules

E’ a Fabula que diz que tu, viripotente
Heroe, prodigios mil fizeste; que mataste,
Na lagoa de Lerna, uma enorme serpente
E que o gigante Anteo nos braços esmagaste.

Com cadeias prendeste o Cerbero — valente
Guarda infernal; um touro iracundo domaste,
E do peso do céo azul e transparente
Por muito longo tempo Atlas alliviaste.

Dize-me a mim, Heroe: Por que tu não me esmagas
Assim como esmagaste o famoso gigante
Que teve a audacia de querer te subjugar?

Por que da minha dor cruel, das minhas chagas
Não me allivias tu, que livraste o possante
Atlas de ter o céo aos hombros a pezar?!...

Commercio do Paraná (21/08/1921)

Fagulhas

I
Beijei-te. O beijo primeiro
Sabe a mel.
Ah! não chegue o derradeiro
Que é de fel.

II
Acreditei na ventura
Um dia em que fui feliz,
Mas o goso pouco dura
E só durou-me a ventura
O que dura a flor de liz.

III
A apparencia tanto illude
Que me julgam venturoso.
Ah! quanto ser sem virtude
Que passa por virtuoso!

IV
Sonhos bons e pesadelos
Tive-os distante de ti.
Aquelles nem sei dizel-os,
Destes nunca me esqueci.

V
Choras? Signal de acre magoa
O teo pranto pode ser,
Porem de olhos cheios de agoa
Tambem se sente prazer,
Assim como, riso aos labios,
Da magoa crueis resabios
A gente busca esconder.

VI
As juras não valem nada
Quando as profere a mulher.
Si queres perder a amada
Fal-a jurar que te quer.

VII
Ninguem se queixe da vida
Por só durar um momento.
Si ella fôsse mais comprida
Maior fora o soffrimento.

VIII
Tive amores, mas agora
Não os tenho. Como flor
nasceram, nascendo a aurora,
Morreram ao sol se pôr.

IX
Dessa tua alma o mysterio
Certa vez desvendar quiz,
E, apezar do esforço serio,
Della não logrei o X.

Trabalha em vão, perde a calma,
O psychologo que quer
Saber os segredos da alma
Da mulher.

X (Sinas Iguaes)
Temos sinas iguaes. Tu, fulvo heliotropio,
Enamorado pelo sol segue-lhes o rastro,
E eu, por amor, num sonho bom, num sonho de opio,
Sigo na terra, como tu, tambem um astro.

Dirás que não ha luz que supplante a solar.
Mentira, eu te direi. Queres prova? Vaes tel-a:
De mais vivo fulgor, no mundo sublunar
Em que vivemos nós, eu conheço uma ESTRELLA...

Diario da Tarde (26/11/1910), como “Jansen de Capistrano”; Commercio do Paraná (21/08/1921), apenas o canto X com título “Sinas Iguaes”

Espelho d'alma

Como é tranquillo o mar que era revolto ha pouco!
Quem o vio em cachões, sob um vento presago,
O dorso em convulsões, convulsamente louco!
Quem o vê retratar a placidez de um lago!

E’s assim, ó minh’alma... A’s vezes, como o oceano
Tu te insurges, porem, esquecida do mal,
Do mal que alguem te fez, porque perdoar é humano,
Tens logo a mansidão de um lago de cristal!

Commercio do Paraná (21/08/1921)

Canção patriótica

Quando passou o regimento
Ao som vibrante do clarim,
Meu coração, nesse momento,
Louco pulsou dentro de mim.
Ta-ra-ta-ra-...-ta-ra-ta-ra...

Como era bello ver-se o porte
Marcial daquella gente ousada
Que caminhava para a morte
Em defensão da Patria amada
Ta-ra-ta-ra-...-ta-ra-ta--ra-ra...

Ao vento, arfando, como um peito,
Em cada dobra, o pavilhão,
Dir-se-ia que sentira o effeito
Da affronta vil feita á Nação.
Ta-ra-ta-ra-...-ta-ra-ta-ra...

Cada soldado era um valente
Dentro de um sonho de victoria,
Por isso que ia aquella gente
Buscar a morte que dá gloria.
Ta-ra-ta-ra-...-ta-ra-ta-ra...

Transpunha já nossa fronteira
O imigo audaz e, vendo-o assim,
A alma da Patria ergue-se inteira
Ao som vibrante do clarim
Ta-ra-ta-ra-...-ta-ra-ta-ra...

Meu noivo foi também á guerra...
Morreus? Que importa, si morrer
Em defensão da amada terra
E’ muito mais do que viver?!
Ta-ra-ta-ra-...-ta-ra-ta-ra...

Vencido, o imigo audacioso
Retrocedeu como um poltrão,
Vendo fluctuar, victorioso,
O nosso amado pavilhão
Ta-ra-ta-ra-...-ta-ra-ta-ra...

Commercio do Paraná (30/01/1921), como “Marinho Serra”

Canção

O vento, como um açoite,
Por entre as enxarcias passa,
E’ noite. Tremenda noite
Como a noite da desgraça.

Como um monstro revoltado,
O mar se levanta em estos,
Como quem despeja irado
A cornucopia de doestos.

Um mundo de cousas hediondas
A’ mente vem, quando o mar
Revolto, revoltas ondas
Contra o céo põe-se a atirar.

Sente-se o gelo da morte
Andando á matroca, assim...
— Senhora da Boa Sorte,
Tende piedade de mim!

De mim e de todos que
Marujos como eu, do oceano
Andam — pobres! — á mercê
Batidos por vento insano,

Que cesse a tormenta, as vagas
Se amainem, tambem, Senhora,
Afim de se ir ter ás plagas
Em que por nós jà se chora.

O céo se faça estrellado,
Mudando o senhor presago,
E sobre o mar não irado
Se viaje, como num lago.

Coitado de mim! Coitada
Dessa em quem saudoso scismo,
Se o mar, se abrindo á rajada,
Me sepultasse no abysmo.

Passou a furia do vento,
O barco, leve, balança...
E no azul do firmamento
Brilha luz de alma esperança.

Coritiba–Paraná

Diario da Tarde (06/08/1910); Commercio do Paraná (27/03/1921)

Barcarola

A’ plaga azul da Chimera,
Da ventura sobre o mar,
Vae a dourada galera
Do meu dourado sonhar.

Meu coração, timoneiro
Embevecido, a cantar,
Não vê ao longe o pampeiro
Que não demora chegar.

O mar sem ondas, parece
Calmo lago em vez de mar.
Singra a galera... Anoitece.
Brilha no céo o luar.

Meu coração, timoneiro,
Feliz, feliz a cantar,
Nem adivinha o pampeiro
Que não demora chegar.

Morre a lua. O céo se offusca,
Toma aspecto tumular!
O mar (que mudança brusca)
Ruge e pega a se encrespar.

Meu coração, timoneiro,
Que adormecera a cantar,
Aos regougos do pampeiro,
Accorda a se estremunhar.

Como fugir dos escolhos?
Como os syrtes evitar?
Que é do clarão desses olhos?
Que é do pharol esse olhar?

Meu coração, timoneiro,
Bem podia adivinhar
Que não escapa ao pampeiro
Quem se aventura no mar...

Ventura? ...Célere passa
Como corisco pelo ar!
Grasna o corvo da desgraça,
Fenece a flor do sonhar.

Meu coração, timoneiro,
Entristecido, a chorar,
Vê, á sanha do pampeiro,
A galera sossobrar...

Arco iris (1923); A Noticia (30/07/1907), como “Jansen de Capistrano”; Commercio do Paraná (24/04/1921)

Ballada

Andei de Herodes a Pilatos
Atraz de ti, ó dama ideal,
Soffrendo sempre os duros tratos
Do teu despreso sem igual,
O coração sangrou-me tanto,
Verti taes lagrimas de dor,
Que até me assombra como o pranto
Não afogou tamanho amor!

E’ muito triste amar-se alguem
Que ri de nòs, que não nos quer...
Como nos dóe nalma o desdem,
— Arma terrivel da mulher!
A chamma intensa do desejo
Dentro de mim era um volcão...
Quanto eu daria por teu beijo,
No louco ardor dessa paixão!

Tudo passou... E desse sonho
Apenas resta, embora vaga,
Uma lembrança, que supponho
Do tempo a esponja não apaga!
O mutuo amor é uma delicia,
Os que se querem são felizes...
Por que não tive tua caricia,
Guardo da dor as cicatrizes!

OFFERTA

Se te não dóe a desventura
De quem te quiz com tanto ardor,
Perdôa ao menos a loucura
De recordar tamanho amor!

Arco iris (1923), Commercio do Paraná (07/11/1920)

Arrufos

A chuva cáe ás bategas lá fóra
E eu, á janella, a olhar... Subito, Flora
Surge a correr, molhada como um pinto,
Arrepanhando a saia... Em vendo-a sinto
Louca vontade de me rir. Parece
Que a alma da gente, ás vezes, endoidece
E como doida ri... De novo a ólho
E num riso, que canta, me desfolho,
Tal o vento uma flor desfolha, quando
Perpassa, como cão damnado, uivando.

E eu sei porque razão acho-lhe graça
E murmuro: bem feito! por pirraça,
E rio, e rio loucamente emfim,
Ao vel-a perpassar pingando assim...

Após reflicto
E da garganta solta-se-me um grito:
Olá!
E Flora, que é formosa mas é má,
Ouve-me a voz e, conhecendo-a embora,
Nem se volve, siquer,
E vae correndo pela rua afóra
Numa curta corrida de mulher.

Medito: devo ou não seguir-lhe a pista?
Claro que sim... Pego o chapéo e saio
Mais ligeiro, talvez, do que o cyclista,
Porem menos um pouco do que o raio.
Alcanço-a sem demora
E, com tremula voz, digo-lhe assim:
Queira saber, altissima senhora,
A causa porque vim...

E Flora, que é formosa, mas que tem
Um genio máu, me fita
Com olhar de desdem
E, raivosa, no ar a destra agita.

Insisto, todavia,
E Ella, sem zanga já, meiga afinal,
Olha-me e ri, assim como eu riria
Em frente de um jogral...

E, unidos, vamos, pela rua afóra,
Sob os olhos da gente que interpella,
Por não saber que Flora
E’ minha noiva e que eu sou noivo d’Ella.

1903.

A Noticia (06/07/1907), como "Jansen de Capistrano"; Commercio do Paraná (17/07/1921)

Anno novo

Passa um anno, outro vem, succedem-se e a esperança
Que com um se extinguio com o outro revigora,
E nossa alma, afinal, que é uma ingenua creança,
Sorri, por lhe sorrir um sonho bom agora.

E assim vivemos, nós... Quando suave, á bonança,
A nave da illusão deslisa mar áfora,
Não guardamos siquer pequenina lembrança
Da magoa que passou e a nossa alma se enflora.

A vida se traduz na esperança; si temos
Agora a nos pungir a dor, logo, em seguida,
Vemos florir de goso os brancos chrysantemos.

Passa um anno, outro vem e deixamos no olvido
As agruras crueis dos temporaes da vida,
Pelo summo prazer que nos é promettido.

Arco iris (1923); Commercio do Paraná (01/01/1913)

Amor desfeito

As ferropeias deste amor violento
Parto-as agora por fugir-te ao jugo.
Seja formal o nosso rompimento
E me refugues como eu te refugo.

Basta de magoa, basta de tormento.
Do coração as lagrimas enxugo.
Para mim viverás no esquecimento
Mulher, que foste o meu cruel verdugo!

Jamais os olhos meus por-te-ei em cima
Plebeia, que arranquei dentre as plebeias,
Collocando num solio á minha rima!

Não mais ser-te-ão um pedestal de estatua
Os versos meus; faltando-te epopeias,
Has de rolar como uma cousa fatua!

Arco iris (1923); Diario da Tarde (08/09/1910), como “Jansen de Capistrano”, com a nota “Villa da Magoa”; Commercio do Paraná (22/05/1921)

A morte de um passaro

A’ memoria de Emiliano Pernetta

A floresta, de luto,
E’ triste agora...
Attento embora,
Não escuto
A doce voz dos passaros; a voz
Que nos encanta
Dos rouxinóes.
Não canta
A philomela... Emtanto, quando o sol
Nasce, a floresta
E’ uma festa:
Cada garganta é um sustenido,
Cada garganta é um lá bemol...
Que bom! Que bom encher o ouvido
Desse gorgeio
Mago, que tem o dom
De penetrar o seio...
Que bom!
***
Porque será tanta tristeza?
Não se ouve, siquer,
Um passaro cantar, ao rosicler
Da aurora que desponta, qual princeza
Ideal...
Jamais eu vi
Silencio igual
Aqui.
Nunca a alvorada
Com seu fulgor de opala
Deixou de ter para saudal-a
Uma ballada...
***
Ah! eu já sei
Porque é muda a floresta... Certa vez
Ouvi contar que quando o rei
Dos passaros fenece, nesse dia
Emmudece a cotovia
E não canta o rouxinól...
E é por isso talvez,
Que sem trinados vem nascendo o sol!
.   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .
Um gatoramo de ouro,
Mais rico que um thesouro,
Que vivera a cantar, feliz... feliz...
De subito morreu... Morreu supponho,
Sem pezar de morrer, porque quem quiz
Fazer da vida um luminoso sonho
Não podia temer esse transporte
Do sonho Vida para o sonho Morte!

Commercio do Paraná (20/02/1921)

A Bandeira

Aos brazileiros meos patricios

Auri-verde pendão, sacro estandarte
E’s a Patria: por ti, contentes, nós
Exporemos o peito ao bacamarte
Como o fizeram já nossos avós.

Se fôr mister, ao campo do deus Marte
Iremos ter alígeros, á voz
Primeira, cada qual um Bonaparte
Sendo na guerra que revela heroes.

Sim! Si o inimigo te ultrajar um dia,
Nós, que temos por ti sincero culto,
Fal-o-emos reparar com sangue o insulto.

Guardar a affronta importa cobardia...
Ninguem te ultrajará, santa Bandeira,
Emquanto houver uma alma brazileira.

Diario da Tarde (15/06/1910); 
Commercio do Paraná (19/11/1912), com versos differentes:
Sim! se o estrangeiro te offender um dia, 
Nós, que temos por ti estranho culto, 
Fal-o-emos resgatar com sangue o insulto.