Mostrando postagens com marcador Arco iris. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Arco iris. Mostrar todas as postagens

Teu retrato

Esses teus olhos, flor, cujo negrume
Idéa dá do lucto de minh’alma,
Têm todo aquelle extraordinario lume
Das estrellas do Azul em noite calma.

Essa tua bocca rubida o perfume
Raro contêm de viridente palma;
A tua voz recorda a voz de um nume
Cuja doçura vendavaes acalma.

Teus cabellos são de ebano, tão pretos
Como a melancolia dos sonetos
Em que descrevo o meu amor adverso.

Teus pés, tuas mãos, teu corpo... Fada,
E’s a belleza personificada
Que eu emmolduro dentro de meu verso.

Arco iris (1923); Itiberê nº 35 (MAR/1922)

Miragem

Ao Leocadio Correia

Como esses regios cysnes de alvas pennas.
Nesse enleio de amor á tona da agoa,
Que bom seria, ó deusa das morenas,
Passarmos a existencia alheia á magoa.

A vida assim, deliciosa, affago-a,
Sem as torturas negras da gehennas:
O peito amante num ardor de fragoa,
O coração desconhecendo penas.

Cysne feliz, á musica do affago
Desse teu beijo, que supponho um favo,
Ser-me-ia a vida crystalino lago.

Minha, só minha! Que prazer insano
Curvar-me aos teus caprichos como escravo
Por ser do teu amor o soberano!

Arco iris (1923)

Nhundiacoara

Magno rio! Tal qual uma serpente
Curva, fazendo curvas, a rolar,
Vaes confundir tua agoa transparente
A’ verde escura e salsa agoa do mar.

Ao contemplar-te magestoso a gente
De subito se deixa arrebatar
E — Ophelia — vae, ao gosto da corrente,
Bellos sonhos doirados a sonhar.

Soberbo rio! O’ rio Nhundiacoara,
Nem mesmo te supplanta o proprio Nilo,
Cuja lympha recorda o Niagara!

Tu semelhas o humano coração,
Ora correndo por demais tranquillo,
Ora rugindo assim como um leão!

Arco iris (1923); Itiberê nº 44 (DEZ/1922); Sonetos do Paraná, com versos diferentes: 

Magno rio! Tal qual uma serpente
Curva, fazendo curvas, a rolar,
Vais confundir tua vaga transparente
À verde-escura ondulação do mar.

Ao contemplar-te, majestoso, a gente
De súbito se deixa arrebatar,
E — Ophélia — vai ao gôsto da corrente,
Belos sonhos azuis a edificar. 

Soberbo rio! O’ rio Nhundiaquara,
Não creio te suplante o próprio Nilo,
Sem flóreas margens, sem tua linfa clara.

O coração semelhas com tuas águas,
Ora, sonhando, a deslizar tranquilo,
Ora rugindo em convulsões de máguas!...

Meu berço

Morretes, meu torrão, solo fecundo
Regado pelo rio Nhundiacoara;
Terra em que os olhos eu abri ao mundo
Por uma de Dezembro tarde clara;

A mercê do destino, vagamundo,
Ora aqui, ora ali, que nunca pára,
Longe de ti embora, que profundo
Por ti o meu amor: ó terra cara!

Que bem que faz a dulcida lembrança
Do tempo bom! Que bom lembrar os dias
Felizes que se tem quando si é creança!

Morretes, berço meu, ó meu torrão,
Onde vivi a par das alegrias,
Como tenho de ti recordação!

Arco iris (1923); Itiberê nº 38 (JUN/1922), com o título “Morretes”; Sonetos Regionaes, também com esse título

Viagem

A Nilo Val

A vida se resume numa viagem
Para a região siberica da morte.
Uns fazem-na ao sabor de leve aragem.
Outros á sanha de pampeiro forte.

Para o feliz o mar verde-folhagem,
Não tem siquer um rabido transporte,
Ao passo que ao infeliz ruge e á voragem
Impelle-o sempre o vento da má sorte.

Um vae directo ao porto do destino,
Sob os accordes magicos de um hymno,
Sem tocar no parcel do Desconforto.

O outro, depois de ter sofrido damnos,
Fazendo escala pelos Desenganos,
Ancóra, emfim, no derradeiro porto.

Arco iris (1923)

Nostalgico

Aqui, longe dos meos, amargurado
O coração pela Saudade, os dias
Passo-os em pranto, como o degradado
Prezo das mais terriveis nostalgias.

Lanço os olhos ao Céo e, desapiedado
De mim, o Céo, tugurio de Alegrias,
Não tem, siquer, um balsamo sagrado
Que lenitive as minhas agonias.

Além ficaram todos nessa linda
Terra... Minha mulher, (que vejo ainda
Chorosa, como na hora em que parti)...

Meus caros filhos, minha Mãe, tão santa,
E toda a amada gente por quem tanta
Lagrima tenho derramado aqui.

Corumbá – Matto Grosso

Arco iris (1923); Correio do Estado (Mato Grosso, 21/07/1909) dedicado a Themystocles Serra e com a nota "Corumbá, Junho 909"

Extase

(A uma cantora)

Encanta ouvir-lhe a voz sonora, encanta
Vel-a em scena a cantar canções de arminho,
Qual se tivesse dentro da garganta
A garganta de mago passarinho.

Escutal-a é escutar-se quando canta
A philomela, é mais ainda: é o vinho
Da alegria beber, que a alma transplanta
A’ plaga de alvos sonhos como linho.

E’ libar se a delicia indefinida
De, enlevado á cantiga das sereias,
Trocar-se pela morte a propria vida.

E’ gozar-se o prazer jamais gozado
De subir, á cadencia das colcheias,
Na aza do sonho ao céo estrellejado.

Arco iris (1923)

Descendo o rio Paraguay

A João Ceryllo Salles

A agua é de prata e o sol — rutilo facho —
Põe-lhe scintillações de quando em quando;
São as margens cercadas de quebracho
Onde alvas garças pousam descançando.

Volvo os olhos ao ar e, voando, acho
Das bellas aranquans um bello bando...
E lá me vou contente, rio abaixo,
O meu berço querido demandando.

Que ineffavel prazer quando se volta!
A gente ri, a gente canta, a gente
Parece um passarinho que se solta!

A saudade se esvae, fogem as magoas,
E o coração, que tanto chora ausente,
Canta como a sereia á flor das agoas.

Arco iris(1923); Diario da Tarde (18/11/1909), com a nota “Outubro de 1909”

Triste

A alma, como um jardim, reflorescida
De sonhos e illusões eu tinha então
E perenne prazer julgando a vida
Presa á bocca trazia aurea canção.

Nem siquer suppuzera que ferida
Viria a tel-a, emfim, pelo aguilhão
Da descrença, que é como do homicida
A adaga que atravessa um coração.

Hoje, viuvo da alegria, mesto
O coração eu tenho, não o inflamma
O sol do amor vivificante e festo.

E a vida sem amor é uma tortura,
E eu soffro e triste sou, pois só quem ama
A’ bocca leva a taça da ventura.

Arco iris (1923)

Ruy Barbosa

De mais vivo esplendor que o diadema
Dos opulentos cezares de antanho
Vê-se-lhe á fronte augusta o fulvo estemma
Do genio, como sol de lume estranho.

Vultuoso ser que, ultrapassando a extrema
Deste amado Brasil, rico e tamanho,
Lá fóra fulgurou — preciosa gemma —
Como aurea joia que deixasse o banho...

Qual o condor remonta-se ao Hymalaia,
Alcandorou-se na aza do Talento,
Nessa tertulia do saber, em Haya.

E do alto, então, num gesto sobranceiro,
Mostrou a Patria, como um monumento,
Aos olhos pasmos do Universo inteiro.

Arco iris (1923); As Armas e as Letras do Paraná; Diario da Tarde (28/02/1910); Album do Paraná nº 10-11 (1920); Itiberê nº 47 (MAR/1923)

De volta

Retornaste afinal, depois de prolongada
Ausencia, que me encheu o coração de assombros
E me fez da existencia uma cruz tão pesada
Que eu não sei como pude aguental-a nos hombros.

Mas, porque se fallar na tortura passada
Relembrando-a se jaz sob negros escombros?
A tristeza passou e, á alegria embalada,
A alma tenho a florir como lizes nos combros.

Recordemos somente os dias luminosos...
A dor que nos feriu, esqueçamol-a agora
Que a ventura nos chama ao palacio dos gozos.

Fiquem no olvido, pois, os desares do Fado,
Que para relembrar o mal que foi embora
Ninguem deve folhear o livro do passado.

Arco iris (1923); Folha Rosea (15/08/1911), com a nota “Coritiba, Julho de 1911”; As Armas e as Letras do Paraná, com a mesma nota

De mira-mar

Desta praia que ao sol reverbera distendo
Agora o meu olhar por sobre o vasto oceano
Em cujo dorso, á cruel furia de vento horrendo,
Passam, perpassam naus, correndo a todo panno.

Ondas vêm de roldão, chocam-se após... Em vendo
O mar irado assim, nesse rugir insano,
Tirito de pavor, que a esse quadro tremendo
Não pode resistir o coração humano.

Desarvora-se agora um veleiro, que á praia
Vem dar; logo depois outra barca é partida
E gritos de afflicção se perdem pelo ar...

E a vaga se avoluma indifferente á guaia
Dos nafragos ao léo... Quanta gente na vida
Em cuja alma se aninha a impiedade do mar!

Arco iris (1923)

Contraste (1)

A uma dama feliz que sempre me interroga sobre a causa da minha tristesa.

Ha corações, suavissima princesa,
Felizes e infelizes; corações
Que vivem, mas num céo azul turqueza
Cheio de estrellas e constellações.

Outros a dura, a rispida fereza
Curtem da magoa presos aos grilhões,
Sem que avistem da crença a luz accesa
Como um phanal em meio ás cerrações.

E dado seja agora um claro exemplo:
O vosso, como aquelles, é ditoso.
Desconhece o pezar, conhece o goso.

O meu, no ról dos tristes o contemplo.
Um contraste afinal... Sorris emquanto
Annuvia-me os olhos agro pranto!

Arco iris (1923); Cartão Postal (1905), como “Nelson de Andrade”

Cantigas (2)

Tu das estrellas differes,
Embora brilhes tambem,
E’ que não me olhas nem queres
E ellas olham-me do Alem.

O sangue não me dá vida.
Vivo de ti e por ti.
Eu sò viverei, querida,
Emquanto te vir aqui.

Confia desconfiando
Na mulher que diz te amar.
Por confiar nellas eu ando
Sobre espinhos a trilhar.

Antes nunca eu te fitasse
Os olhos meus, que jamais,
Depois que te vi a face,
Eu pude viver em paz.

Desta dor que me alanceia
Tu te ris, por que somente
Se avalia a magoa alheia
Pela magoa que se sente.

Quem ama fecha aos conselhos
Os dois ouvidos; em vão
A experiencia dos velhos
Quer conter o coração.

Nunca te mires no espelho
De quem vive a maldizer...
Ouve e cala-te; o conselho
Só te pode dar prazer.

Só fui feliz em verdade
Depois que te conheci,
Que a minha felicidade
Provem apenas de ti.

O’ lua, sê testemunha
Das juras que Elza me faz...
E a lua disse: suppunha
Não houvesse um tolo mais.

Arco iris (1923)

Cantigas (1)

Magoas — tem-n’as todo mundo,
Mas quero crer que ninguem
Sinta um pezar tão profundo
Como eu o sinto, meu bem.

Tu bem sabes que eu te amo
Com desmedido fervor,
Embalde, porem, te chamo
Num desespero de amor.

Não dás ouvido ao meu grito
E eu sorvo taças de fél...
Augmenta a afflicção do afflicto
O teu descaso cruel.

Atlante, vergado ao peso
Do mundo menos soffreu
Do que, teu feroz despreso
Supportando, soffro eu.

Esses teus labios de tyrio
Si se abrissem para mim,
Ao meu immenso martyrio
De prompto dariam fim.

O crepe que a alma me encobre
Um teu olhar rasgaria
E eu, que de affectos sou pobre,
Ricos de affectos seria...

E’s surda, emtanto, ao reclamo
Do meu amor tão profundo,
E eu soffro, porque te amo,
As magoas todas do mundo.

Arco iris (1923); Diario da Tarde (MAR/1910), como “Jansen de Capistrano”

Passarinho feliz

A Benedicto Costa

Pousado em um pinheiro, que parece
Esmeraldino para-sol aberto,
Dês de manhã até que entenebrece.
Canta um canario á minha casa perto.

Em ouvindo-lhe o trino, o meu deserto
Peito, como um jardim, todo floresce.
— Passarinho feliz, ninguem, por certo,
Como tu a tristeza desconhece!

Invejo-te, canario, a bella sorte:
Cantar, cantar desde o nascer á morte,
Como se a vida fôra uma canção!

Quizera, como tu, ser passarinho,
Para da magua não sentir o espinho
Que me lacera o triste coração!

Arco iris (1923); Diario da Tarde (18/01/1910), com o título “Canario feliz”, a nota “Botiatuvinha–Dezembro–1909” e versos differentes: 
Pousado em um pinheiro, que parece
Esmeraldino para-sol aberto,
Dês da manhã até que a noite desce 
Trina um canario, á minha casa perto.

Ouço-lhe o canto e, ouvindo-o, o meu deserto
Peito, como jardins, todo floresce. 
— Passarinho feliz, ninguem, por certo,
Como tu a tristeza desconhece!

Invejo-te, canario, a bella sorte:
Cantar, cantar desde o nascer á morte,
Como si a Vida fôra alma canção. 

Quizera ser tambem um passarinho 
Para da magua não sentir o espinho
Que dilacera o humano coração.

Calumniado

Alto, muito alto paira. Assim como uma esphinge
Impassível se mostra á corja vil que tenta
Feril-o, mas em vão. Em vão que o não atinge
Da calumnia soez a barba peçonhenta.

Eil-o sereno — um Deos — (Aureo estemma lhe cinge
A ampla fronte de heroe) em meio da tormenta...
A inveja, como um cão ladrando á lua, ringe
Os dentes, quer mordel-o e não logra o que intenta.

Heis de cançar, por fim, ó torpes detractores,
A calumnia não mancha um caracter tão limpo,
Embalde proseguis nessa tarefa ingloria.

E, por certo, amanhã, num halo de esplendores,
A despeito de vós, como os Deuses no Olympo,
Seu nome brilhará nas páginas da História.

Arco iris (1923); A Noticia (04/07/1907), com a nota “1904”

Barcarola

A’ plaga azul da Chimera,
Da ventura sobre o mar,
Vae a dourada galera
Do meu dourado sonhar.

Meu coração, timoneiro
Embevecido, a cantar,
Não vê ao longe o pampeiro
Que não demora chegar.

O mar sem ondas, parece
Calmo lago em vez de mar.
Singra a galera... Anoitece.
Brilha no céo o luar.

Meu coração, timoneiro,
Feliz, feliz a cantar,
Nem adivinha o pampeiro
Que não demora chegar.

Morre a lua. O céo se offusca,
Toma aspecto tumular!
O mar (que mudança brusca)
Ruge e pega a se encrespar.

Meu coração, timoneiro,
Que adormecera a cantar,
Aos regougos do pampeiro,
Accorda a se estremunhar.

Como fugir dos escolhos?
Como os syrtes evitar?
Que é do clarão desses olhos?
Que é do pharol esse olhar?

Meu coração, timoneiro,
Bem podia adivinhar
Que não escapa ao pampeiro
Quem se aventura no mar...

Ventura? ...Célere passa
Como corisco pelo ar!
Grasna o corvo da desgraça,
Fenece a flor do sonhar.

Meu coração, timoneiro,
Entristecido, a chorar,
Vê, á sanha do pampeiro,
A galera sossobrar...

Arco iris (1923); A Noticia (30/07/1907), como “Jansen de Capistrano”; Commercio do Paraná (24/04/1921)

Ballada

Andei de Herodes a Pilatos
Atraz de ti, ó dama ideal,
Soffrendo sempre os duros tratos
Do teu despreso sem igual,
O coração sangrou-me tanto,
Verti taes lagrimas de dor,
Que até me assombra como o pranto
Não afogou tamanho amor!

E’ muito triste amar-se alguem
Que ri de nòs, que não nos quer...
Como nos dóe nalma o desdem,
— Arma terrivel da mulher!
A chamma intensa do desejo
Dentro de mim era um volcão...
Quanto eu daria por teu beijo,
No louco ardor dessa paixão!

Tudo passou... E desse sonho
Apenas resta, embora vaga,
Uma lembrança, que supponho
Do tempo a esponja não apaga!
O mutuo amor é uma delicia,
Os que se querem são felizes...
Por que não tive tua caricia,
Guardo da dor as cicatrizes!

OFFERTA

Se te não dóe a desventura
De quem te quiz com tanto ardor,
Perdôa ao menos a loucura
De recordar tamanho amor!

Arco iris (1923), Commercio do Paraná (07/11/1920)

Anno novo

Passa um anno, outro vem, succedem-se e a esperança
Que com um se extinguio com o outro revigora,
E nossa alma, afinal, que é uma ingenua creança,
Sorri, por lhe sorrir um sonho bom agora.

E assim vivemos, nós... Quando suave, á bonança,
A nave da illusão deslisa mar áfora,
Não guardamos siquer pequenina lembrança
Da magoa que passou e a nossa alma se enflora.

A vida se traduz na esperança; si temos
Agora a nos pungir a dor, logo, em seguida,
Vemos florir de goso os brancos chrysantemos.

Passa um anno, outro vem e deixamos no olvido
As agruras crueis dos temporaes da vida,
Pelo summo prazer que nos é promettido.

Arco iris (1923); Commercio do Paraná (01/01/1913)