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N'um Leque

Posto que eu peque
ou seja audaz, meo nome quero, escripto,
deixar n'uma vareta do teo leque
esquisito.

Posto que eu peque
ou seja audaz... talvez penses em mim
emquanto tiver vida este teo leque
de marfim.

A Notícia (05/06/1907), como "Jansen de Capistrano"

Versátil

Um coração tristonho muitas vêzes
Ri às bandeiras despregadas, ri
Esquecido, o infeliz, de que os revezes,
Como bandidos, andam por aí...

O meu é assim. Após mêses e mêses
Passar chorando, basta ao pé de ti
Me vêr para olvidar as acres fezes
Das tôrvas amarguras que sofri.

A saudade é um punhal. Quando distante
Estás de mim, êsse punhal, afeito
A ferir, me golpeia, lacerante.

Mas, se te avisto, eis o meu mal desfeito:
Sinto, qual se endoidasse num instante,
Rindo e cantando o coração no peito!

A Noticia (20/12/07), com o título “Soneto”;
Commercio do Paraná (22/05/1921), com o título “Transformação”

Epistola amorosa

Como me encheu de jubilo e de magoa
A tua carta pequenina; ao lel-a
Os olhos se me encheram todo d’agoa
Ao mesmo tempo que (como se a estrella
Mais brilhante do Azul, a luz radiosa
Por sobre mim lançasse de uma vez
E me envolvesse em luz...) a alma ditosa,
Palpitou-me em suave embriaguez.

Deu-me prazer, porque de quem se estima
A letra basta para dar prazer.
Nem preciso se faz que seja opima
A carta e grande seja a mais não ser.
Breve palavra só é uma caricia,
Doce consolo a quem a lê, ó Flor,
E leva a gente, ás azas da delicia,
A’ alva região mirifica do Amor.

Entristeceu-me... A gaze da tristeza
O coração ensombra quando alguem
Como tu, interroga na incerteza
De que eu ainda te quizesse bem.
Como não te querer? Neste retiro
Não te posso esquecer um só momento
E — crê — louco de amor por ti suspiro,
Sem poder te tirar do pensamento.

A’s vezes, me parece que te vejo,
Qual uma flor extranhamente rara,
O’ bella encarnação do meu desejo
Por quem a vida mesmo não poupara.
E saio — mas, em vão — no teu encalço
(Como apraz se sonhar!) e finalmente
Accordo como que de um sonho falso
Com teu perfil a me bailar na mente.

Domingo ainda pela manhã cedo,
Na hora da missa na pequena ermida,
Pareceu-me te ver (não é brinquedo)
De rubro perpassar toda vestida.
Semelhavas, assim, loura rainha,
Rico manto de purpura arrastando,
E sem cortejo, e rutila, e sosinha
Qual tangará que se apartou do bando.

Cheguei a ouvir a inveja, exasperada,
Dizer de ti mil cousas tão crueis
Como o puz de uma chaga gangrenada
Ou como os travos asperos dos fiéis.
E nada disse, emtanto... e nem covarde
Fui por isso... Bem sabem, meu amor,
Que á inveja, embora grite com alarde,
A gente sempre faz de mercador.

Deixei-a blasphemar porque, de resto,
Fôra inutil tentar tapar-lhe a bocca.
De que valera, dize-me, um protesto
Contra as loucuras de uma pobre louca?
E’s bella e virtuosa e é quanto basta...
A inveja é má. Virtude e formosura
Ella as detesta e, quando pode, arrasta
Ambas pelo caminho da amargura.

Só agora reparo que enfadonho
Vou me tornando, em te fazendo, assim,
A descripção real de irreal sonho
Que quasi sempre me persegue a mim.
Mas, bem sabes, amor, na soledade,
O coração deserto de prazer,
Emquanto escrevo amaina-me a saudade
E me custa parar de te escrever.

Perdoa-me, portanto, minha amada,
Se monotono fui e, por favor,
Não mais perguntes á alma apaixonada
Se ainda te consagra o mesmo amor.
Póde o fero destino me atirar
A’ mais triste e longinqua solidão,
A ausencia nunca, nunca ha de esfolhar
A flor do affecto do meu coração.

Villa da Magoa – 1907
Arco iris (1923); A Noticia (11/07/1907), como “Jansen de Capistrano”

Naufragio

(Sob a dorida impressão da catastrophe do “Guasca”)

Não demora tingir o longinquo horisonte
O sanguineo clarão predecessor da aurora
E, na ancia de aportar antes que o sol desponte,
Singra o mar o navio a doze nós por hora.

A bordo reina paz. Como que somno insonte
Todos vão a dormir, talvez sonhando, afóra
Alguem que véla e vê de subito, defronte,
A pequena distancia uma outra náo... Agora

O perigo é imminente... Um grito altisonante
Acorda, a estremunhar, o pobre commandante,
Que ordena carregar o leme, carregar...

E nisto ouve-se um choque... O vapor se espedaça,
O mar traga-o voraz e, ao coro da desgraça,
Os naufragos ao léo se debatem no mar!

Arco iris (1923); A Noticia (09/12/07), com a nota “Coritiba, 8-12-07”

Revoltado

Ao Socrates Quadros

Ninguem me cerca a mim... Só me vejo e sosinho
Em me vendo concebo idéas por demais
EXQUISES, tal como sahir pelo caminho
Como louco a gritar os homens são desleaes.

O vosso coração não é mais do que um ninho
Em que se aninha o mal, ó perfidos chacaes!
Todavia o dizeis suave como o arminho,
Doce como sorriso em labios virginaes.

Bem te conheço a ti que passas... por nonada
Déste n’um teo irmão (horror!) em pleno peito,
A sangue frio, o máo! profunda punhalada.

Eu sei quem sois, eu sei, não me illudis, infieis,
E por isso de vós eu fujo com o respeito
Com que me afasto, ouvi, das serpes cascaveis.

Bizarrias (1908); A Noticia (18/09/1906)

Origem do Amor

Ao Julio Pernetta

Segundo a Biblia Deus o mundo fez
Em 6 dias; no 7º do afan
Sentou-se a descançar, como um inglez
Sobre o fôfo velludo de um divan.

Adão no paraíso era sosinho,
E passara dess’arte a vida inteira
Si Deus se não lembrasse, com carinho,
De junto collocar-lhe a companheira.

Emquanto Adão dormia uma costella
Deus lhe tirou e fez Eva, a mulher,
A creação supinamente bella,
Embora falle d’ella quem quizer.

Ao entregar-lhe a companheira, disse:
A vida ser-vos-á, manhans e tardes,
Um eterno sorrir de meninice,
Prazer mais que prazer se não peccardes.

Que sim, falou Adão... Mas Eva, um dia,
Eu não sei se por artes de Taneco,
Se lhe mostrou radiante e — quem diria! —
Elle tentado murmurou: — eu pécco.

Contra a força não houve resistencia,
In-continente fez-se peccador...
Peccou, peccou, peccou e, consequencia,
E’ filho do peccado o Deus Amor.

Bizarrias (1908); A Noticia (23/08/1907)

Drama Eterno

(No Album de C. R. Teixeira de Freitas)

O Mundo é um grande theatro. O panno, meus senhores,
Ergueo-se uma vez só e não desceo jamais.
O scenario varia: ao Sol, tem resplendores,
E, á noite, quasi sempre, é tetrico de mais.

A Vida é o eterno drama. Uns actos são de horrores,
Outros cheios, porém, de accordes musicaes.
Intervallos não ha e nós, tristes actores,
Só deixamos o palco em demanda da Paz...

Por vezes, tendo n’Alma a escuridão da gehenna,
Pomos, por sobre o rosto, a mascara — mentira —
E tal qual Arlequim, a rir, vimos á scena.

E cada qual assim, desempenha o papel...
Um se vae, outro vem, a platéa delira,
E continua o drama — a Torre de Babel.

Bizarrias (1908); A Noticia (03/07/1907)

Dandão

Ao Raul Gomes

I
Horrível sonho... †††! ... Pesadelo
Cuja recordação
Põe-me de pé cabello por cabello,
Marmorisa-me todo o coração!

Do medo as carnes relha-me o açoite,
Parece o ar me falta
Ao lembrar que passei inteira a noite
Sob o terrível guante da ephialta.

II
Mal cerro os olhos vejo de mim rente
A Morte, por signal
Uma mulher com geito de doente
Que fugisse de um catre de hospital.

E logo após (sou eu a testemunha)
A lamina senti
Da ceifadora foice que ella empunha
Atorar-me o pescoço, bem aqui...

III
O coveiro a cantar alegre trova,
Alheio á alheia dor,
7 palmos medio, após a cova
Começou a cavar, bom cavador.

IV
Eis-me agora entre vermes sob a areia,
Com que sofreguidão
Um bando de lacraus se banqueteia
Carcomendo-me todo o coração.

V
Desta morte cruel, tal como Christo
Venho de resurgir.
Alleluia! Alleluia! Tudo isto
Não foi mais do que um sonho de Fakir!

Bizarrias (1908); A Notícia (01/07/1907)

Coveiro

Ao Domingos Velloso

De longas barbas, olhar funereo,
coveiro mau,
porque é que habita o cemiterio
como o lacrau?

O teu aspecto... Jesus, que medo!
que medo, chi!
quando te vejo, de manhã cedo
passeando alli...

Por entre cruzes ziguezagueias,
como se fôras
negra abantesma, por noites feias,
aterradoras.

Abrindo covas, o dia inteiro
de enxada á mão,
levas a vida, negro coveiro
sem coração.

Ser desprezível, frio de pedra,
alma de pez,
ao bem esteril, onde só medra
a malvadez...

Mal, a finados, badala o sino
sorris, assim
como se ouvisses tocar um hymno
tará-tá-chim!

Almas pranteiam n’um triste pranto
desolador,
e tu, contente, cantas emquanto
choram de dor...

Mães te maldizem, rogam-te pragas
verdes, crueis
como a gangrena roxa das chagas
ou como os feis.

Homem nefasto, tambem te odeio
com odio tal,
que fôra um goso cravar-te ao seio
todo um punhal!

Jogar-te ao fundo de fundo abysmo
de fauce hiante,
ó vil, ó monstro, cujo cynismo
não ha quem cante!

Porque doente, doente, doente,
quasi a finar
ando, me lanças constantemente
cúpido olhar.

Olha, uma noite sonhei comtigo,
vi-te, a sorrir,
abrindo a valla do meu jazigo
para eu dormir.

E quando os olhos abri, me pasma
dizer-te até,
tu te sumiste, como um phantasma,
pé ante pé.

E desse sonho nunca mais pude
livre me ver,
a mal do esforço, coveiro rude,
para o esquecer...

Impressionado, por toda parte
bem te lobrigo,
embora busque sempre evitar-te
como um perigo.

Em vão me escondo, mesmo que fuja
vejo-te a ti,
coruja negra! Corta, coruja,
tirri-tri-ti!

Prompta a mortalha. Cessa o agoureiro
corte de azar...
sinto-me exhausto. Negro coveiro
podes cantar.

Bizarrias (1908); A Notícia (22/06/1908); Poesia Paranaense em 1908

Calumniado

Alto, muito alto paira. Assim como uma esphinge
Impassível se mostra á corja vil que tenta
Feril-o, mas em vão. Em vão que o não atinge
Da calumnia soez a barba peçonhenta.

Eil-o sereno — um Deos — (Aureo estemma lhe cinge
A ampla fronte de heroe) em meio da tormenta...
A inveja, como um cão ladrando á lua, ringe
Os dentes, quer mordel-o e não logra o que intenta.

Heis de cançar, por fim, ó torpes detractores,
A calumnia não mancha um caracter tão limpo,
Embalde proseguis nessa tarefa ingloria.

E, por certo, amanhã, num halo de esplendores,
A despeito de vós, como os Deuses no Olympo,
Seu nome brilhará nas páginas da História.

Arco iris (1923); A Noticia (04/07/1907), com a nota “1904”

Barcarola

A’ plaga azul da Chimera,
Da ventura sobre o mar,
Vae a dourada galera
Do meu dourado sonhar.

Meu coração, timoneiro
Embevecido, a cantar,
Não vê ao longe o pampeiro
Que não demora chegar.

O mar sem ondas, parece
Calmo lago em vez de mar.
Singra a galera... Anoitece.
Brilha no céo o luar.

Meu coração, timoneiro,
Feliz, feliz a cantar,
Nem adivinha o pampeiro
Que não demora chegar.

Morre a lua. O céo se offusca,
Toma aspecto tumular!
O mar (que mudança brusca)
Ruge e pega a se encrespar.

Meu coração, timoneiro,
Que adormecera a cantar,
Aos regougos do pampeiro,
Accorda a se estremunhar.

Como fugir dos escolhos?
Como os syrtes evitar?
Que é do clarão desses olhos?
Que é do pharol esse olhar?

Meu coração, timoneiro,
Bem podia adivinhar
Que não escapa ao pampeiro
Quem se aventura no mar...

Ventura? ...Célere passa
Como corisco pelo ar!
Grasna o corvo da desgraça,
Fenece a flor do sonhar.

Meu coração, timoneiro,
Entristecido, a chorar,
Vê, á sanha do pampeiro,
A galera sossobrar...

Arco iris (1923); A Noticia (30/07/1907), como “Jansen de Capistrano”; Commercio do Paraná (24/04/1921)

Arrufos

A chuva cáe ás bategas lá fóra
E eu, á janella, a olhar... Subito, Flora
Surge a correr, molhada como um pinto,
Arrepanhando a saia... Em vendo-a sinto
Louca vontade de me rir. Parece
Que a alma da gente, ás vezes, endoidece
E como doida ri... De novo a ólho
E num riso, que canta, me desfolho,
Tal o vento uma flor desfolha, quando
Perpassa, como cão damnado, uivando.

E eu sei porque razão acho-lhe graça
E murmuro: bem feito! por pirraça,
E rio, e rio loucamente emfim,
Ao vel-a perpassar pingando assim...

Após reflicto
E da garganta solta-se-me um grito:
Olá!
E Flora, que é formosa mas é má,
Ouve-me a voz e, conhecendo-a embora,
Nem se volve, siquer,
E vae correndo pela rua afóra
Numa curta corrida de mulher.

Medito: devo ou não seguir-lhe a pista?
Claro que sim... Pego o chapéo e saio
Mais ligeiro, talvez, do que o cyclista,
Porem menos um pouco do que o raio.
Alcanço-a sem demora
E, com tremula voz, digo-lhe assim:
Queira saber, altissima senhora,
A causa porque vim...

E Flora, que é formosa, mas que tem
Um genio máu, me fita
Com olhar de desdem
E, raivosa, no ar a destra agita.

Insisto, todavia,
E Ella, sem zanga já, meiga afinal,
Olha-me e ri, assim como eu riria
Em frente de um jogral...

E, unidos, vamos, pela rua afóra,
Sob os olhos da gente que interpella,
Por não saber que Flora
E’ minha noiva e que eu sou noivo d’Ella.

1903.

A Noticia (06/07/1907), como "Jansen de Capistrano"; Commercio do Paraná (17/07/1921)

15 de Novembro

Como se fôra a fulva trajectoria
Que um astro deixa á abobada azulada,
Em letras de ouro ás paginas da Historia
Esta data feliz ficou gravada.

Não podia maior padrão de gloria
Caber a um marechal a cuja espada
Devemos das victorias a victoria
Da Liberdade nesta patria amada.

Ao sublime vibrar da Marselheza.
Para sempre baqueou a realeza
E ao Brazil descerrou-se um trilho novo.

E, rolando por terra a monarchia,
Iguaes fez-nos a todos neste dia
O governo do povo pelo povo.

Arco iris (1923), A Noticia (15/11/1907)