Outono

E' como um pobre doente de ictericia
O sol amarellado. Causa dó
Vel-o, assim, como quem uma caricia
Supplica e não n'a tem, enfermo e só.

Hontem, radiante no Alto, uma delicia
E a fital-o, derramando em pó
Ouro a rodo... Dir-se-ia a esponsalicia
Festa da Terra e de Helio, ao sol-e-dó.

Hoje arvores fenecem como sonhos
Aureos, sonhados quando a primavera
Do amor enflora corações risonhos.

Tal como o sol, soturno e no abandono,
Se fica, porque a morte só se espera,
Ao vir da vida o doloroso outono.

Elvira

Ao Hypolito Pereira

Olhos de estrella que a treva espanca,
                         Que a treva esgarça...
Passa, perpassa de branco, branca.
                         Como uma garça.

Ao sol ardente que lyrios cresta
                         Resplende a côma,
De onde se evola o suave aroma
                         De malva e giesta.

Labios vermelhos, macia rosa
                         De rubra cor;
Divina bocca, boca olorosa.
                         Como uma flor.

Pisa de manso, com tanta graça,
                         Mal se presente...
Parece uma ave quando esvoaça
                         Serenamente.

Em côro dizem todos ao vel-a
                          Passar tão leve:
"Visão sublime de um sonho breve!
                         "Rutilla estrella!

"Astro que d'alma desfaz a treva"
                         "Mytho, phantasma,
"Chimera, duende, sonho que enleva
                         "Seduz e pasma!

                         ***
Lyrio dos lyrios! O' branco lyrio!
                         O' flor! O' luz!
Esgarça a treva do meu martyrio,
                         Tira-me a cruz...

Ando arrastado pelo caminho
                         Da desventura!
Nem um consolo, nem um carinho
                         De uma alma pura!...

Ermo de affectos me vejo agora
                         O' luz! O' flor!
Faze-me n'alma surgir a aurora
                         Fulva do amor.

Lyrio dos lyrios! O' branco lyrio!
                         O' flor sem par!
Espanca a treva do meu martyrio
                         Com teu olhar.


N'um Leque

Posto que eu peque
ou seja audaz, meo nome quero, escripto,
deixar n'uma vareta do teo leque
esquisito.

Posto que eu peque
ou seja audaz... talvez penses em mim
emquanto tiver vida este teo leque
de marfim.

A Notícia (05/06/1907), como "Jansen de Capistrano"

Hymno a´ Imprensa

Salve Deusa immortal cujo brilho
Se enfunde com o brilho do sol!
Salve Imprensa! Phanal sobre o trilho
Que conduz a logares de escol!

(Estribilho): Qual astro que erra
No céo sem fim,
Tambem na terra
Brilhas assim.

Gutenberg sonhou-te radiante!
E, sonhando-te assim, seu ideal
Era ver-te fulgir cada instante
Como um astro de luz immortal!

(Estribilho)

Mensageira do Bem, mensageira
Do talento, da paz e do amor,
Onde quer que tu’ vás fica a esteira
Fica a esteira de teu resplendor!

(Estribilho)

E’ por ti que se afere de um povo,
Porque espalhas a luz do saber!
Salve, Imprensa, Phanal sempre novo
Cuja luz sempiterna ha de ser!

(Estribilho)

Apotheose da revista “O Jornal”
Commercio do Paraná de 06/03/1921

Villancete (3)

Eu vos quiz antigamente,
Hoje não vos quero mais.
Sois-me agora indifferente
Como as mulheres banaes.

VOLTAS

Meu coração já não sente
O amor que por vós sentio;
Eu vos quiz antigamente
Com fervor e desvario.

O vosso desdem, emtanto,
Magoou-me como punhaes,
E se outr’ora eu vos quiz tanto,
Hoje não vos quero mais.

Daquella paixão ardente
Não resta sombra siquer;
Sois-me agora indifferente
Como outra dama qualquer.

Se me encantastes outr’ora,
Hoje vós não me encantaes.
Para mim sois vós agora
Como as mulheres banaes.

Eu vos quiz antigamente
Como um louco quer a alguem;
Porque vos via ridente
Eu era a sorrir tambem.

Hoje não vos quero mais
E não vos querendo, emfim,
A pureza das vestaes
Já não tendes para mim.

Sois me agora indifferente,
Nada em vós a mim seduz.
Si passaes á minha frente
Vejo um astro sem ter luz.

E nem vos distingo, ao menos,
Das outras com quem andaes,
Que vos vejo, minha ex-Venus,
Como as mulheres banaes.

25-8-1911
Folha Rosea (JUN/1912)