Vaidade castigada

Madrigaes, a granel, fizeram-lhe os poetas,
Quando em pleno esplendor da mocidade; emtanto
Porque se via assim requesitada, secretas,
Fundas magoas causou e causou muito pranto.

Almas cheias de amor, palpitando, inquietas,
Seguiam-na, tal qual segue ao sol o helianto,
E sardonica, a rir, insensivel ás settas
De Eros, Diva suppunha immortal seu encanto.

Houve justas crueis por sua causa: duellos
Rubros entre rivaes, que brandiam cutellos
E loucos de furor se queriam matar!

Fez triumphal ascenção de remigio em remigio,
Entre cantos de amor... Ephemeros fastigios!...
E’ sombra do que foi! Belleza é fumo no ar!...

Commercio do Paraná (21/08/1921)

Unico


não
ha
pão

Chá
são

dão

Quem
tem
fome

Chá

tome.

Fora de Foco

Uma scena

Meu tio José cochilando
á cabeceira da meza;
ao lado d’elle bordando
a minha tia Thereza.

No chão Rozinha brincando
co’ uma boneca franceza;
mais adiante o Fernando
dando beijocas na Andreza.

A prima minha Silena,
bella menina morena,
sentada n’um canapé...

E, D. Dulce, agregada,
contempla a nossa creada
Eva coando café.

Almanach Paranaense (1900)

Trovas

Dizem que consola o pranto
Os males do coração,
E eu tenho chorado tanto
Sem lograr consolação.

Eu era alegre e sou triste
Como è triste a mulher louca.
Desde o dia em que partiste
O riso morreu-me á bocca.

Deixou-me a felicidade
Ao me deixares tambem,
Hoje vivo da saudade
Que me deixaste, meu bem.

Ainda sangra a ferida
Que me fizeste ao partir...
Ai vida, que não é vida
Quando não se pode rir!

Amores! Quem não os sabe
Não os procure saber,
Porque assim talvez acabe
Sem o pranto conhecer.

Tem caprichos o deos Eros,
Faz gozar e faz soffrer.
Por horas de agrores feros
Troca instantes de prazer.

Amei-te. Feliz minuto
Foi o minuto de amor...
Partiste... tarjou-me o luto
E choro cheio de dor.

Diario da Tarde (08/10/1910), como “Jansen de Capistrano”

Terror presago

A Thiago Peixoto

Contricto, me ajoelho, e á indefinida Altura
Elevo, muita vez, o meu olhar e indago:
O motivo porque me acobarda e tortura
Todo o meu coração um receio presago.

E longo tempo assim, nessa estranha postura,
Invocando o Senhor, esse divino Orago,
Levo, cheio de fé, e minh’alma procura
Descortinar, em vão, este mysterio vago...

Sem esperança ter... Por fim desanimado
Ao chão eu volvo o olhar, e como um desgraçado
Filho da magoa atroz e da dor inclemente,

Que martyrisa tanto, e que tanto espesinha,
Maldigo este terror que me punge e amesquinha
E ponho-me a chorar desesperadamente.

Azul (1900)