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Amor desfeito

As ferropeias deste amor violento
Parto-as agora por fugir-te ao jugo.
Seja formal o nosso rompimento
E me refugues como eu te refugo.

Basta de magoa, basta de tormento.
Do coração as lagrimas enxugo.
Para mim viverás no esquecimento
Mulher, que foste o meu cruel verdugo!

Jamais os olhos meus por-te-ei em cima
Plebeia, que arranquei dentre as plebeias,
Collocando num solio á minha rima!

Não mais ser-te-ão um pedestal de estatua
Os versos meus; faltando-te epopeias,
Has de rolar como uma cousa fatua!

Arco iris (1923); Diario da Tarde (08/09/1910), como “Jansen de Capistrano”, com a nota “Villa da Magoa”; Commercio do Paraná (22/05/1921)

Alácre

A Domingos Nascimento

Eu hoje amanheci como alguem que sonhasse
Ter se feito senhor de um castello sumptuoso
E, assim, nessa illusão, que é bella mas fugace,
Corresse, sol a sol, toda a escala do goso.

Entretanto, ao deitar, não pensei que acordasse
Sentindo o coração a palpitar ditoso
Como uma ave feliz que se escapa ao rapace
Abutre, que a persegue e lhe priva o repouso.

Que delícia dormir sem ter um pesadelo!
O riso é um vinho bom e eu quizera sorvel-o
Para viver na ebriez desse doce cordial.

Sob o sol do prazer resplandecendo em áscua,
Tem-se nalma a cantar a alegria da Paschoa
E se vive a sorrir em notas de crystal.

Arco iris (1923), Diario da Tarde (17/06/1911)

A Vida

A vida que é? Nem mais nem menos isto:
Prazer e desprazer, gosto e desgosto.
De desventura e de ventura um misto,
Risos dalva e dolencias de sol-posto.

Uns carregam a cruz de Jesus Christo,
Sangrando coração e em pranto o rosto.
Outros, ditosos como os tenho visto,
Vão justamente pelo lado opposto.

A breve e longa estrada da existencia,
Ao trilhal-a o feliz, toda se enflora,
Illuminando-a estranha refulgencia.

E de syrtes crueis ella se touca
Quando a pisa o infeliz, que se deplora
Num desespero tetrico de louca.

Arco iris (1923)

A uma ingleza

Onde quer que vás eu hei-de
Seguir-te, mimosa “lady”
De olhos azues como o Azul.
Cumprirei á risca a sorte,
Quer sigas rumo do norte,
Ou quer demandes o sul.

O heliotropio acompanha
O sol fulvo que nos banha
Qual catadupa de luz...
Assim seguirei teu rastro,
Tal como a flor segue o astro.
O’ “lady” de olhos azues.

Onde quer que vás, por força,
Embora, como agil corça,
Corras tu, irei também.
Desperto ou mesmo dormindo,
Sempre teus passos seguindo,
Has de me ver muito bem.

E se, por ventura, fores
Parar á mansão de horrores
Em que mora Satanaz,
Não te cause pasmo, “lady”,
Em me vendo lá, porque hei-de
Seguir-te onde quer que vás.

Arco iris (1923); A Noticia (20/06/1907)

A caminho do Amor

Para o Joaquim Pereira Alves

Sonhas... Num sonho bom vives tu embalado
Porque se te aproxima o venturoso dia
Em que esse sonho azul verás realizado,
A alma tens a cantar radiante de alegria.

Caminhas tu, feliz, para o paiz doirado,
Da delicia, a sorrir, que o prazer te inebria,
A’ lembrança que vaes tel-a breve a teu lado,
No remanso do lar, iriante de magia.

O amor te embala a ti, embalando-a... Felizes
Sois e, certo, sereis, amanhã, quando unidos
Os vossos corações tão puros como lizes...

Entes que, como vós, se querem nessa pura
E grandiosa affeição vivem comprehendidos
Sob o pallio lyrial da deusa da ventura.

Arco iris (1923)

A Caçada

I

E’ noite ainda e esperto já no quarto
Estou. Quero dormir e não consigo
A’ idéa de caçar, como se farto
Estivesse do somno, que eu bemdigo.

Olho ás horas... São trez menos um quarto.
... Agora, sim... Espera-me um amigo...
Ponho a espingarda a tiracollo e parto
A’ semelhança de um monteiro antigo.

Aos primeiros clarões da madrugada,
Emmaranhados em virente enxara
Estamos, quaes bandidos de emboscada.

Os passaros accordam numa festa
E, ouvindo-os, nem um tiro se dispara
Contra a alma sonorosa da floresta.


II

Porque malvado ser tirando a vida
Dos meigos passarinhos, cujo canto
Para quem traz a alma dolorida
Tem a virtude de um remedio santo?

Porque fazer calar essa sentida
Musica suave que recreia tanto
E, num transporte, leva á indefinida
Região azul mirifica do encanto?

Alguem, acaso, dulcido recreio
Julga o matar alacres passarinhos
Perversamente lhe varando ao meio

O pequenino coração? Talvez.
Ha muitas almas brancas como arminhos,
Ha muitas almas negras como pez!

Arco iris (1923), Diario da Tarde (09/07/1910)

15 de Novembro

Como se fôra a fulva trajectoria
Que um astro deixa á abobada azulada,
Em letras de ouro ás paginas da Historia
Esta data feliz ficou gravada.

Não podia maior padrão de gloria
Caber a um marechal a cuja espada
Devemos das victorias a victoria
Da Liberdade nesta patria amada.

Ao sublime vibrar da Marselheza.
Para sempre baqueou a realeza
E ao Brazil descerrou-se um trilho novo.

E, rolando por terra a monarchia,
Iguaes fez-nos a todos neste dia
O governo do povo pelo povo.

Arco iris (1923), A Noticia (15/11/1907)

"O Major"

mísero aleijado que se arrastava pelas ruas da cidade.

Andava por ahi se arrastando... Um aborto
Era da natureza o pobre que,
Mãos tortas, pernas tortas, todo torto,
Causava pena a quem o via. De

Improviso se foi, não mais, absorto,
Em cima delle se poz olhos e
Ninguem sabe explicar se o triste é morto
Ou se é vivo... O caso é que se o não vê.

Deos permitta que tenha elle morrido
E na valla commum seu esqueleto
Entre outros esqueletos esquecido

Esteja. Antes assim. Não morre — vive
Quem sem provar da vida o mel de hymeto
Róla da morte no ultimo declive.

Arco iris (1923), Diario da Tarde (24/06/1909)